Alguma Alegria

Tristeza. O contrário de alegria. Algo que humanos e animais sabem por absoluta experiência. Tenho tristezas. Não tristezas que me façam arrancar os cabelos, ter crises histéricas. São silenciosas, não inteiramente dissimuladas, e não chamam atenção, elas ou eu.

Não são curáveis, não porque eu não as queira curadas. Não por aqui e agora. Um dia, elas desaparecerão junto com as minhas memórias. Não são curáveis também porque as conservo e as quero sempre diante de mim. São empedernidas, não por teimosia, mas porque simplesmente as coisas que as causaram não serão mudadas. Aprendi em inglês que há duas palavras para “eu desejo”, “eu quero”: want e wish. As duas são a mesma coisa por um detalhe estritamente cultural. “I want” é usado para coisas possíveis, enquanto “I wish” para coisas que definitivamente não ocorrerão. Ano passado, dois colegas faleceram, digamos, desnecessariamente, vítimas de cirurgias necessárias, mas de modo nenhum não adiáveis. Se foram, isso não pode ser humanamente consertado. A tristeza desta forma está congelada e não pode ser esquecida.

Algumas canções melancólicas se referem a um certo décimo quinto andar (ainda pesquisarei para ver o que significa), e um álbum musical melancólico tem também esse mesmo nome. Todos temos tristezas ou razões para tristezas, profundas ou não, congeladas e muitas vezes inconfessáveis. Suportadas, ignoradas, adormecidas.

Acho que não sou uma pessoa tão querida, por duas razões básicas: jamais me esforcei para isso. Nunca investi seriamente em aparência. Tenho muitos cabelos na cabeça, mas se pela genética fosse careca, não investiria em implantes, nem próteses capilares, perucas e muito menos dirigiria de boné dentro do carro (alguém me explica essa babaquice?). Logo, tenho amigos que posso contar em uma mão, talvez uma mão e meia. Amigos verdadeiros que me querem bem. Colegas? Talvez encham as duas mãos… Não colegas com os quais convivo simpaticamente, por simples sociabilidade, pessoas que me fizeram bem no decorrer da vida sem que eu soubesse ou pudesse agradecê-las… Digamos, impossível contá-las como contar os pelos dos braços. Pecados? Bem, aí, tenho cabelos de sobra. E não pense que ser calvo garantirá a ida para o céu.

Tenho tristeza por ser meio anônimo, meio desconhecido, meio ignorado? Talvez sim, talvez não. Na maioria das vezes, gosto de ser ignorado, de ser quase invisível. Reconhecimento? Eventualmente os tenho, mas desconfio seriamente que aqueles amigos que se contam nas mãos sejam exageradamente generosos comigo.

Finalmente, não posso me dar às frescuras (para usar uma palavra atual e quase chula). Sei que há incontáveis pessoas no mundo, que por várias razões têm todos os motivos para terem tristezas muito mais dolorosas. Tristezas inapagáveis, para criar um neologismo, como apontadas na belíssima canção, cuja música é do pianista Elton John, “Circle of Life”: “Desde o dia que aterrissamos nesse planeta e vimos o sol”… “Alguns têm ou guardam, suportam cicatrizes (que não podem ser removidas)”. Ou seja, muita gente sofre sem cura. Têm tristezas agudas para as quais não há consolo algum. As nossas, as minhas, as suas, provavelmente são frutos de desejos egoístas não satisfeitos, infantis ou maduros, mas que nem de longe são o mais importante a se lamentar eternamente. O que faço? Vou esquecendo e me ocupando com outras coisas, mais urgentes, que deem mais satisfações verdadeiras, enfim alguma alegria que substitua qualquer tristeza.

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