OLHOS DE FOME

Este livro foi lançado recentemente, em dezembro de 2025, mas sua gestação se deu ao longo dos últimos quarenta anos — um pouco mais ou menos: foi um parto programado e longo.
Michel Salomão esteve às voltas com a burocracia, especialmente a ainda mais burocrata e menos eficiente, a justiça. Contudo, nada o impediu de sonhar, conceber e dar à luz ao seu projeto mais ambicioso e, por que não, mais ansiado — para o pequeno círculo de amigos que estavam a par da sua criação. Nesse período, o autor produziu muito do que está em suas páginas, com o vigor, desprendimento e convicção de que o seu processo criativo era, no mínimo, estranho e estranhamente real e imaginativo, sem a distinção de onde um começava e onde o outro terminava. A realidade pode muitas vezes ser impalpável, enquanto a imaginação pode ser, por seu lado, extremamente concreta. Cabe a uma e outra suas porções de evidências e mistérios.
Pois, finalmente, “Olhos de Fome” está entre nós. Não como mais um livro, mas o livro dentro de tantos outros que a vida de Michel produziu e a maioria dos leitores não terá acesso. Se há um consolo é o de que, na personalidade surpreendente do autor — que se mistura à estranheza de suas criações — a possibilidade é real de encontrar traços e componentes que indiquem a saída do labirinto de sentimentos, afetos e paixões que personificam o ser humano, em maior ou menor grau, nos símbolos e camadas do texto.
A obra é uma coletânea de contos escritos nas últimas décadas, sendo a maioria nos últimos três, quatro anos, com o advento da Revista Bulunga. Neles encontramos a mesma estética de surpreender o leitor com temas aparentemente banais, mas que causam desconforto e empatia, ao nos ver refletidos nas formas — ou “fôrmas” — e nos identificamos, por exemplo, com o funcionário medíocre, o megalomaníaco, o psicótico, o ranzinza, ou a mulher — do conto inicial que dá título ao livro — que, incapaz de intimidade, utiliza o sexo como forma de poder, tenta não repetir a herança violenta, mas apenas a ressignifica. Em nenhum momento, o livro é conciliador, reconfortante, ou apela para os clichês modernosos.
Ainda que não exista um nítido desejo de absolvição, os temas e personagens são apenas expostos, sem sentimentalismo ou pieguice, sem atenuar os conflitos ou descaracterizá-los. Se está a procura de literatura reconfortante ou conciliadora, em que os dilemas sejam apagados em um passe de mágica, vade retro, desista. Mas se quer realmente conhecer a alma humana, com todos os seus dramas — muitos, patéticos —, dúvidas e aquele deslocamento natural e sincero, é um prato cheio.
Porém, não se esqueça: em quase todos os escritos de Michel, você sempre encontrará aquelas pitadas — em maior ou menor grau — do humor satírico, provocativo, irônico e, por vezes, deliberadamente hiperbólico e caricatural. É assim que funciona. É assim que deve ser. Tal qual Bukowski, Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes, capazes de transformar o feio, o banal e o rotineiro em algo intenso e, às vezes, belo e otimista.
O mais engraçado, se me permite, é quando notamos o narrador a rir de si mesmo, a fazer do seu caráter, dogmas e conceitos, a base ideal para a autocaricatura e, assim, tirar sacadas e risos diante do espelho. É quando o riso do leitor ao personagem se volta ao narrador e, quase sempre, ao autor. Tem-se o círculo perfeito, inquestionável. E disso vive a boa literatura, desta capacidade autodepreciativa e nada ufanista.
Para quem “torce o nariz”, atire a primeira pedra. Porém, esteja consciente de que ela pode voltar como um bumerangue.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados