Em um país dividido ideológica e partidariamente, onde os valores, talentos e dons são aquilatados pelo viés político, tanto de um lado como do outro, com raríssimas exceções, tendem a colocar tudo e todos dentro da sua caixa de pandora. Basta o elogio de um correligionário ao pensamento, arte ou análise de um oponente (mesmo a concordar com o fragmento e não o todo) e será suficiente para constatar a traição e debandada às fileiras inimigas. De cá e de lá, não se permite arrazoar-se, entender que existem diferenças mas também convergências, que os caixotes não precisam ser estanques; é possível o diálogo, reconhecer acertos e a comunhão de ideias, muitas vezes recursos mais eficientes, verdadeiros e satisfatórios do que os enclausurados nas “gaiolas dos loucos”. Os estereótipos, os radicais e suas falas insanas, acabam por viabilizar a padronização de todos como se saídos de um único molde. É verdade que esses espécimes têm pululado em maior número, brotado como ervas daninhas, e com eles é praticamente impossível qualquer diálogo ou entendimento, visto suas mentes serem formadas e formatadas por chavões e clichês repetidos à exaustão, típicos dos cães que se identificam ao cheirar o “fiofó” alheio.
Nós, da Bulunga, entretanto, não desprezamos o talento e as virtudes de quem quer que seja, desde que apresentadas em equilíbrio, prudência e bom senso. Também, não somos obrigados a reconhecer o todo ao admitir uma parte; isso é lá com os intratáveis e ominosos panfletários e ativistas obtusos e tóxicos.
Toda esta introdução não seria necessária se a figura de Ariano Suassuna não estivesse ligada ao socialismo e esquerda, e durante boa parte da sua vida teceu loas à figuras como Arraes, Lula e Eduardo Campos; membro do P.S.B. e uma figura quase folclórica. Não comungo das suas simpatias, mas isso em nada afeta o seu talento e capacidade de traduzir em arte a realidade. Novamente, para deixar claro, falo das partes, não do todo. E não preciso reconhecer o todo para saber que frações de sanidade e juízo é possível a qualquer um, desde que sua consciência não esteja aprisionada por discursos obsessivos e psicóticos. Seus “causos”, narrados em palestras e oficinas pelo país, são ainda hoje objeto de deleite e risadas de milhões de pessoas que o assiste no YouTube, p. ex., ou os capazes de apreciar a sua arte em prosa e verso. A capacidade de ser ao mesmo tempo popular, erudito e pensador sagaz o tornam emblemático na cultura nacional; e ao idealizar o “Movimento Armorial”, fundiu essas qualidades e valorizou a cultura nordestina.
Mas, quem foi mesmo Suassuna?
Nasceu em 1927, em João Pessoa, e faleceu em 2014, em Recife. Escritor, dramaturgo, ensaista, poeta, artista plástico e filósofo, era filho do presidente (hoje, governador) do estado da Paraíba, João Suassuna, assassinado no Rio de Janeiro por questões políticas, em 1930, e, segundo o próprio Ariano, a morte do pai foi encomendada por familiares de João Pessoa, também assassinado, meses antes, quando disputava as eleições à presidência do Brasil, na chapa de Getúlio Vargas.
Aos dezesseis anos, mudou-se com a família para Recife, onde concluiu o ensino secundário no Colégio Americano Batista. No ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Aos dezoito anos, publicou o seu primeiro poema “Noturno” no Jornal do Commercio. A primeira peça, “Uma mulher vestida de sol” foi escrita em 1947.Entre 1952 e 1956, dedicou-se à advocacia e ao teatro. Nesse período, em 1955, escreveu talvez a sua obra mais famosa: “O Auto da Compadecida”, traduzida para o inglês, francês, italiano, espanhol, polonês, entre outras. Nessa obra, de maneira simples, engraçada e caricatural, sem esquecer dos elementos satíricos, ao mesmo tempo em que apresentava as corrupções da alma, com todas as suas ambiguidades, notava-se também os elementos arraigados na moral cristã, sem a necessidade de escrever um tratado teológico. Segundo ele mesmo, teve formação calvinista, tornou-se agnóstico (o ateu que não se assumiu), e após o casamento e influência da esposa, Zélia, converteu-se ao catolicismo.
Certa vez, descreveu a sua arte: “… Em quase todo o meu teatro, um pouco por causa da natureza da sátira, mas também um pouco, parece, por causa da minha formação calvinista, eu passo o tempo todo julgando os outros e a mim mesmo, absolvendo ou condenando os bons e os maus. Nesse meu longo romance, Quaderna, O Decifrador, do qual A Pedra do Reino é a primeira parte, não digo que não existam as categorias do Bem e do Mal, mas acho que, sem querer, por uma questão de amadurecimento, eu me libertei do espírito de julgamento, para balbuciar como os Cantadores nordestinos, o grosseiro esboço de uma filosofia e de uma teologia mais libertas porque mais próximas da Divindade – e esse esboço de pensamento meu é profundamente marcado por Santa Tereza e por São João da Cruz (…). Divindade que parece ter uma certa predileção por esse mundo de cactos, pedras, bodes, onças, cavalos pequenos e velozes, homens duros…”.
E, também, falou sobre sua relação com Deus: “Acho que muito pouco ou quase nada sabemos sobre Deus, de modo que seria uma atitude muito grande de orgulho, para mim, querer impor pontos de vista pessoais à Igreja. Sou um homem contraditório e dilacerado, inquieto e cheio de dúvidas. Exatamente por isso é que sinto necessidade de Deus. É a ele que eu, às vezes cantando, às vezes rindo, às vezes rugindo, faço minhas perguntas. Perguntas sobre o Mal, sobre o sofrimento, sobre a terrível angústia humana, sobre o sentido de todo esse estranho jogo da vida, que foi ele – e não nós – quem começou.”.
Morreu, após terminar a sua obra mais ambiciosa, o romance póstumo “A Ilumiara”, escrito em duas partes, nos últimos 30 anos de vida.
Ocupou a cadeira 32, na Academia Brasileira de Letras.

