Quem já não teve a sensação de estar despertando em meio a uma situação desapercebida anteriormente? Uma experiência semelhante à percepção de um salto no tempo? Pois é, ocasionalmente, e só por puro acaso mesmo, causado por algum algoritmo, me deparei com um vídeo de um pianista, de cabelos grisalhos, em um show, em uma apresentação festiva, cheia de cinquentões animados e felizes. Ele, ao piano, junto com esposa também sexagenária ou mais, filhos e netos. O título do vídeo, logo abaixo, no canal do YouTube: O músico do “The Beach Boys”.
Claro, lembrava-me deles mais pelo nome do que pelas canções. Um outro vídeo me é recomendado, e após uma pesquisa rápida, fico sabendo (nunca soube ou não me lembrava) que esses cinco outrora rapazes influenciaram os Beatles (!!). Vejo as fotos, quando jovens, atléticos, surfistas, mas meio redondos e não secos como os de hoje. Mais à frente, outro vídeo com o mesmo músico, o fundador do grupo, em um evento com as mãos tremendo, parecendo já ter sinais de Parkinson. Mais um pouco, fico sabendo que ele já morreu, com mais de oitenta e quatro anos, acho. E não foi no dia em que vi tudo isso, já são fatos passados. Em poucos minutos, um quarto de hora ou pouco mais, tive informações, incluindo visuais de uma vida quase inteira e da sua morte.
No sábado, dia 14, fiquei sabendo da morte de meu cunhado, casado com a irmã e madrinha de minha esposa. Em poucos minutos, o que poderia ser um texto mais ou menos curto num obituário, toda uma vida foi resumida e um único encontro da minha esposa com ele foi relembrado. Isso certamente acontece todo dia, várias vezes ao dia, sobre os falecidos e a reação de parentes e amigos e, novamente, com as quase trezentas pessoas mortas direta ou indiretamente no lamentável acidente de avião ocorrido na Índia, ou no acidente com menos vítimas ocorrido pouco depois no Brasil: o acidente de um helicóptero e um balão e oito mortos. Que lições podemos tirar ou, talvez, nenhuma? Não mudará os fatos e o mundo?
Cientistas e religiosos, sempre que desocupados, se pronunciam sobre aspectos dessas coisas. São dilemas humanos. Talvez, não só humanos. Animais sofrem as mesmas coisas, mas como não falam, não escrevem textos e choram em silêncio, prosseguem vivendo.
Não esqueço o que vi, quando uma pequena cadelinha, talvez no cio, ao ser perseguida romanticamente por dois vira-latas muito maiores que ela, ao desviar-se de uma calçada totalmente irregular até para humanos, pisou no asfalto em uma descida, logo no momento em que um motorista distraído e irresponsável a atingiu. Os dois vira-latas grandalhões viram tudo e a viram agonizar e morrer em segundos. Desajeitados, após perceberem a morte da coitadinha, se viraram e subiram outra rua, em silêncio. Na cabecinha dos dois, embora sem palavras, certamente tentaram assimilar o triste acontecido. Nunca mais os vi. Talvez evitem passar na mesma rua, embora seus tutores, e a casa onde vivam, estejam nos arredores.
A vida é uma janela, um gap, não uma janela física, como nos referimos objetivamente em nossa língua portuguesa, mas figurativamente como um parêntese, um espaço entre duas coisas. Temos acesso a esse espaço, vivemos entre esses parênteses e dele sairemos de uma forma ou de outra. Dentro desse espaço nunca fomos os mesmos, não somos os mesmos, e não sairemos os mesmos. Muitos saem melhores, outros saem muito piores, mais do que ao chegarem.
Ateus e religiosos passam a vida se automassageando, negando o óbvio: o fim pode chegar a qualquer dia, por qualquer motivo. Um deles, é bastante razoavelmente percebível: não temos uma bateria que dure para sempre! A energia que nos faz viver tem validade, e convenhamos, é curta. A segunda: não somos produtivos o suficiente para termos uma vida “matusalênica”. De profetas a tiranos, todos nos tornamos decadentes e patéticos no decorrer dos anos. Alguns de nós têm um ápice produtivo, que para muitos nunca ocorre; depois é só decadência. Muito tardiamente temos uma noção mais ou menos exata de que estamos fazendo algo útil e interessante. A maioria das pessoas do mundo, nem isso. Pessoas que não são mais jovens, pensando e se comportando como adolescentes. “Artistas” crendo que as canções que compuseram há sessenta anos constituem alguma coisa que valha a pena. A música é eterna, as canções, na maioria das vezes, são percebidas como realmente são: ridículas e até retardadas! Enfim, muitos de nós, certamente a maioria, nessa janela, “gap” curta, ainda pagam o mico de se ver como alguém que de fato não são. Quem poderá nos revelar a verdade? Deus, no juízo. Penso, só imagino, pior que o inferno será o choque ao ter de reconhecer a grande farsa que muitas vezes fomos e somos.
Só alguns entenderão: ser “salvo” é sair ileso desse pior momento.

