O campinho Marotão

– Um relato nostálgico e um lamento pela liberdade ingênua e pueril de um espaço impunemente aberto que nossos tempos não proporcionam mais. –

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O Marotão. É uma imagem recente, diferente daquela da minha memória. Mas é o Marotão!

Eu tinha sete ou oito anos de idade quando nos mudamos para o Coqueiral de Aracruz, no Espírito Santo. Um bairro afastado da sede do município que abrigava as famílias dos funcionários da Aracruz Celulose. Ficou bem gravado em minha retina o momento em que chegamos na casa que seria nossa habitação por um punhado de anos felizes em nossas vidas.

Chegamos de carro, como era o costume da família, sempre na estrada. O que me chamou mais a atenção foi o contraste de cores. O azul do céu; o branco das casas, todas iguais; o cinza do paralelepípedo hexagonal; o verde das cercas vivas de hibisco; as próprias flores de hibisco das cercas vivas em várias cores.

Também o espaço. As avenidas eram cortadas de ruas qual espinha de peixe. As casas tinham muros baixos e cercas vivas, mas as ruas eram amplas, e entre algumas ruas havia enormes e convidativos espaços vazios. Dentre eles um verde e interessante campinho de futebol logo ao atravessar a rua da nossa casa. Campinho que dividia e entremeava duas espinhas de peixe.

Não sei se já era assim. Acho que isso veio depois. De todo modo, Marotão era o nome deste campinho. Perceba o diminutivo. Todos os que o vivemos o chamamos assim: o campinho Marotão!

Roberto Maroti — ou seria Marotti? — morava do outro lado do campinho, na outra espinha de peixe. Ele era meu colega de turma, um dos três Robertos, o França, o Maroti e o Vargas. Era filho de nossa professora. Ainda lembro das chamadas e, principalmente, das divulgações de notas:

— Roberto, Roberto, Roberto, 10, 10, 10. — éramos bons alunos e as notas não raro eram iguais. O França era quem destoava um pouco, mas bem pouco (8, 10, 10 ou, na proporção do potencial individual aparente: 9, 10, 9,5…). Ou, às vezes, em resumo ouvíamos: — Robertos, 9. — era divertido.

A família Maroti guardava na sua casa as redes e as bolas para as peladas dos adultos. A pelada dos adultos, aliás, era um evento! Eram um bando de pernas de pau, mas multidões se apinhavam em volta do campinho para vê-los jogar. Ou usavam o jogo deles por desculpa para se reunir em volta do campinho Marotão.

A molecada não precisava guardar nada lá. A gente fazia pelada sem rede e com qualquer bola. Naquela época bola era algo que não faltava. Assim como campinhos. Havia vários no Coqueiral. Mas o Marotão sempre foi o “nosso campinho”, o campinho da “minha turma”.

Nós nos aventuramos em outras áreas verdes. Até nos perdemos na mata para lá da outra espinha de peixe (o que mais tarde se tornou uma ampliação do bairro). Mas o Marotão sempre foi nossa arena. Até mesmo quando adolescentes as brincadeiras se tornaram outras além da bola.

Reuníamo-nos lá após as aulas, antes das aulas, às vezes mesmo durante as aulas. E era engraçado como nos reuníamos. Às vezes era combinado sim. Mas na maioria das vezes um ou dois seguiam ao gramado com uma bola e metiam nela chutões escandalosos, o mais audivelmente escandaloso possível. Em quinze minutos o Marotão estava lotado de moleques sedentos por gastar energia, já com os times divididos.

E dá-lhe correr atrás da bola!

Havia os bons de bola. Havia os perebas. Havia os goleiros. Havia até eu. Eu nunca fui muito bom em esporte algum. Mas também não era assim tão mau. Não tinha muita habilidade, mas compensava na agilidade e na corrida. Fazia gol a dar com o pau correndo pelos lados do campo e saindo na cara do goleiro com o chute mais forte que minhas pernas podiam.

E havia batalhas épicas! A maioria na bola, mas de vez em quando uma salutar batalha no braço também. De forma geral, tratávamo-nos na base dos xingamentos. Não havia sequer um termo agradável entre aqueles moleques que se gostavam como amigos que eram. Havia, ao invés, competição de xingamento. Um bom xingamento sempre foi muito bem apreciado e fazia reputações!

Mas, sim, as batalhas épicas na bola… Éramos gladiadores. Éramos soldados. Lutávamos com honra. Os times, ou melhor, os exércitos eram sempre divididos para que a peleja fosse equilibrada. Conhecíamos o potencial bélico uns dos outros. Raramente um exército se sobressaía facilmente. Lutávamos, pois, com honra até o fim, embora também não fosse raro que o fim fosse um “quem fizer ganha”.

Não é de admirar que o campinho seja Marotão, que o diminutivo chame o aumentativo. O pequeno campo foi palco de momentos grandiosos!

Eu não sabia, quando pela primeira vez o vi, que aquele verde e interessante campinho de futebol seria dos fatores aquele a mais contribuir para que o punhado de anos em nossas vidas passados no local fossem de fato felizes.

E não poderia jamais atinar a nostalgia que ele me proporcionaria décadas depois, quando, adulto e pai de três filhos, lamento que os tempos tenham mudado a tal ponto que meus moleques não convivam com um campinho de futebol.

Ah, como fazem falta Marotões!

Roberto Vargas Jr.

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