Hoje, acordei com aquela nostalgia, pensando na minha madrasta — que já mencionei tantas vezes. Ela nunca foi ao supermercado. Ela não gostava de sair de casa, ou não sabia. Só saía quando a gente mudava das casas alugadas. Quando mudávamos de casa para casa, e muitas vezes de um bairro para outro. Talvez, por isso, eu conheça Belo Horizonte como a palma de minha mão.
Essa nostalgia surgiu devido ao fato de, hoje, aposentada, eu não querer sair de casa. Daí pus-me a lembrar de quando ela dizia, de repente, virada para o fogão, para a porta da cozinha, ou mesmo para o vazio:
— Paixão, pegue um pedaço de papel e escreva aí o que eu quero que comprem!
Ainda me lembro como se fosse agora: arroz, feijão, açúcar e banha eram bem pouco, sempre um quilo, no máximo dois, e para uma família que tinha, à época, umas quatorze pessoas… Todos os filhos já nascidos e na juventude — eu era a caçula. Entretanto, farinha e fubá eram cinco quilos. A razão? Por serem mais baratos, serviam simplesmente para misturar ao arroz, ao feijão e dar volume. Ao serem ingeridos, atrasavam a digestão e espantavam a fome. Um jeito simples de enfrentar a pobreza de barriga cheia.
A vida era dura. A vida já foi realmente dura, e os jovens das últimas gerações nem fazem ideia disso. O dinheiro que entrava — pois só o meu pai trabalhava e sustentava a família — era priorizado com o aluguel, água e luz. Depois, quando os filhos começaram a trabalhar, tinham seus próprios gastos, e mesmo ajudando aqui e ali, não havia sobras para esbanjamento ou luxo. Foram doze filhos, minha madrasta, meu pai, mais três agregados e três ou quatro netos, um pouco mais tarde. As roupas passavam dos maiores para os menores até se acabarem. Assim como os sapatos também.
Nos anos setenta, meu pai começou a ter os privilégios que trabalhadores efetivos e estatais tinham. Pôde passar a comprar mantimentos e outras coisas básicas na Cooperativa da Rede Ferroviária Federal. Ele, que tinha começado como colocador de dormentes em linhas de trens, agora era almoxarife. Aí, sim, começamos a comer “arroz agulhinha”, “banha de porco”, “banha de coco”, “carne de charque”… A vida começou a melhorar, os irmãos mais velhos e as minhas irmãs se casaram, e o êxodo deixou a casa mais vazia, com menos bocas, e as refeições já não eram como antes. A mudança fez a alegria dos que ficaram, entre eles, eu.
Por outro lado, minha madrasta, a quem sempre chamei de mãe, primeiro por não saber que ela não era minha mãe biológica e, depois, por reconhecimento e gratidão, se mostrava mais cansada, mesmo que nós mulheres ajudássemos nas tarefas mais pesadas da casa. Foi um bálsamo quando, finalmente, a TV valvulada se juntou ao rádio de pilha — mamãe podia, depois de toda a lida do dia, sentar-se no mesmo lugar no sofá de couro, cujo rasgado era tampado com uma pequena toalha, blusa ou outro tecido, para não ser visto por ela mesma ou por alguma visita.
Ali, ela assistia a novela “Carinhoso”, com a “Namoradinha do Brasil”, Regina Duarte, e o galã Tarcísio Meira. Eu, a caçulinha, a derradeira e ainda solteira — jovem demais até mesmo para um namorico — assistia fascinada, e perguntava:
— Mamãe, onde eles ficam?
— Eles quem, Paixão?
Era como todos na família me chamavam, e ainda me chamam. É uma longa história; depois explico.
— O pessoal da novela, mamãe!
— Na TV…
E completava:
— Lá atrás…
— Eles estão lá! Você é que não viu, Paixão.
No outro dia, sem ninguém assistindo, eu ia atrás da TV e olhava através de um tipo de papelão todo furadinho; via as válvulas, a ponta do garrafão do tubo de imagens e um monte de fios com um cheiro de plástico e borracha aquecidos.
Ao perguntar, de novo, ela reafirmava:
— Eles estão lá! Você é que não viu, Paixão.
Penso que não era simplesmente para aplacar a minha curiosidade infantil, mas de que ela realmente acreditava naquilo.
A T.V., mesmo usada, de segunda ou mais mãos, era “Advance”, um luxo só!
Mamãe tinha sempre um Bombril sequinho, separado para correção da imagem. Na verdade, melhorava o sinal. Qualquer chuvisco era corregido pelo tal aparato criativo e muito popular. Mamãe dizia:
— Paixão! Pega o Bombril e põe na antena aí!
Ah! Durante a novela, era proibido ligar o liquidificador ou o ferro de passar roupas elétrico.
“Carinhoso” era a novela das seis. Após terminar o capítulo do dia, mamãe dizia feliz:
— Paixão, vá dar milho para as galinhas. Amanhã, você assiste mais televisão…
Após dar milho ou ração para as galinhas, eu ia logo para a cama e, literalmente, me desligava.
Certa noite, não dormi de imediato. Olhei pela fresta da porta do quarto e lá estava a minha mãe assistindo televisão. Peguei uma coberta para cobrir as pernas dela. Na verdade, queria ver o que estava assistindo. Ela me perguntou:
— Paixão, o que você está fazendo acordada?
— Vou ao banheiro. E a senhora, mamãe, vendo o quê?
—Jornal Nacional.
— É assunto de adulto, né?
— Vai dormir! Amanhã, tem muitos afazeres.
E o dia começava cedo para mim. Mas, antes de eu acordar, ela já estava na cozinha, preparando as coisas.
Não dormia com as galinhas, mas acordava com o galo.

