Ele queria fazer sucesso na internet. Queria ficar milionário como essa gente que saiu do nada e que, da noite para o dia, passou a ganhar milhões de dólares com AdSense. Se ganhasse em reais, tudo bem, sem problemas, mas queria que tudo acontecesse antes de completar 18 anos. Havia o caso de um YouTuber que ficou rico aos 8 anos de idade, falando um monte de besteiras sobre joguinhos on-line. E quem se lembra do Psy, do absoluto sucesso de “Gangnam Style”? Alguém poderia imaginar que se transformaria naquele fenômeno? Nem ele imaginou.
Apesar das mudanças de critérios de gigantes das plataformas, que diminuíram sensivelmente suas formas de remuneração pelas visualizações de seus conteúdos, ainda havia espaço para mais gente. Seria como um garimpeiro que fica procurando nos rejeitos das minas, em um córrego escondido no meio da mata, e encontra um fabuloso diamante.
Contratou tráfego pago, assinou todos os tipos de planos de visualização nas redes sociais, pagou para influenciadores promoverem as suas páginas e canais, entrou no antigo Twitter, atual X, para brigar com o cantor Roger, trocava ideias em portunhol com o Trump e com o Elon Musk, mas nada estava resultando efetivamente em money. Pelo contrário: estava gastando muito e ganhando nada.
Seus conhecidos mais próximos diziam: “Cara, o seu conteúdo é muito bom. Uma hora você acerta”. Foi quando teve uma ideia radical: para chamar a atenção, transformar-se-ia em um streamer, anunciando que se mataria em rede mundial. Marcou o dia e a hora, na verdade, esperando criar uma discreta polêmica que gerasse ao menos algum artigo publicado em um veículo de comunicação com pouca ou nenhuma visibilidade, como a Revista Bulunga. Mas, quando abriu os links, deparou-se com mais de cinco milhões de espectadores ávidos por assistir a um macabro espetáculo.
Teve a chance de ler alguns dos milhares de comentários de religiosos, políticos, palpiteiros e oportunistas que pretendiam lucrar em cima desse acontecimento, mas havia também os haters, que formavam a maioria, que ameaçavam matá-lo caso não morresse de verdade. Recebeu até mesmo uma notificação da Polícia Federal, a mando de uma alta autoridade que normalmente só atuava em ações contra opositores do governo, que lhe concedia um prazo de 24 horas para manifestar-se acerca do seu ato, considerado antidemocrático.
Tentou fazer o cálculo de quanto aquelas visualizações lhe renderiam em cash, mas precisava pensar em uma forma de finalizar aquela representação cênica em que se envolvera. Lembrou-se de uma participação em uma aula de teatro, quando representou um personagem que tentaria atentar contra a própria vida, apontando uma arma contra a têmpora, mas que no final desistiria; e ainda tinha aquela réplica de revólver entre os seus guardados.
Com muita dificuldade, encontrou-a em uma caixa escondida na parte superior de seu armário, mas ela possuía aquele pino vermelho característico na ponta do cano, demonstrando que era uma réplica. Assim, teve que serrá-lo utilizando uma faca de cozinha, para depois fazer um melhor acabamento com uma lixa. Aproveitou para lixar a marca do produto, que denunciaria tratar-se de um brinquedo, e melhoraria o efeito colocando-a contra o foco de uma luz mais fraca, em apenas um lado do rosto.
Àquela altura do campeonato, até mesmo os espectadores mais espiritualizados, que aparentemente buscavam dissuadi-lo da ideia radical, já estavam impacientes e diziam coisas do tipo: “Acaba logo com essa novela aí”, “Já vai tarde”, “Não estou por sua conta”, “Estou atrasado para o supermercado”, “Vá se encontrar com o capiroto”. E, em sua cabeça atribulada, tentava pensar em como fazer para receber o dinheiro e fugir do país.
Lembrou-se de que havia um colega da escola que, diziam, tinha uns contatos com falsificadores de documentos, mas não daria tempo de ligar para ele antes de iniciar a sua live. Seus pais nem faziam ideia da revolução que passava pela sua cabeça dentro daquele quarto iluminado por uma fraca luz azul, decorado por pôsters nas paredes e alguns livros de informática e bonequinhos de animes dispostos em seus nichos.
Pensou em desistir, em confessar para os visualizadores que havia sido uma fraqueza e que acabara de se converter a uma seita que se reúne em ambientes com paredes pintadas de preto. Mas alguns dos haters avisavam: “Nós sabemos onde você mora”. E assim decidiu levar a farsa adiante: selecionou um áudio de tiro de revólver, pegou na cozinha um vidro de ketchup e amarrou o suporte da câmera com uma linha, com a outra ponta presa ao dedo do pé para, dessa forma, sincronizar o momento exato em que acionaria o gatilho, derrubaria a câmera e apareceria, por fim, caído no chão com a cabeça cheia de ketchup. Era uma ideia estúpida, mas foi a melhor que teve naquele momento.
Vocês não vão querer que eu conte o final dessa história. É claro que deu tudo errado. A mãe dele entrou no quarto, gritando: “Que porcaria é essa que você está fazendo aí, menino?”. Deu-lhe uns safanões e fez com que desligasse imediatamente o computador. Talvez tenha sido esse o desfecho mais realista para a situação.
Ainda assim, durante muitos dias ou meses, ele procurou sair às ruas usando um boné e óculos escuros. Mas nada aconteceu. Os haters se escondem por trás de suas telas imundas. As pessoas misericordiosas que, a princípio, diziam querer ajudá-lo, retornaram às suas vidas mesquinhas e egoístas. Ele também não recebeu dinheiro algum, pois havia se esquecido de inscrever-se previamente para monetizar os seus canais.
Michel Salomão