Como a psicologia pode ajudar as mulheres a questionarem seu papel no trabalho do cuidado e se posicionarem frente a essa imposição?
A autora Nísia Floresta foi a primeira mulher brasileira a denunciar o mito da superioridade do homem e de defender as mulheres como pessoas inteligentes e merecedoras de respeito igualitário, reforçando que a mulher é tão capaz quanto qualquer homem de assumir cargos de liderança e demais atividades na sociedade.
A despeito das conquistas sociais e dos dispositivos legais que postulam a igualdade de direitos entre homens e mulheres, as discriminações ditadas pelo patriarcado são uma forma de violência de gênero e de violação dos direitos humanos das mulheres, que atravessaram os tempos e deixam suas marcas ainda na atualidade.
Sobre o patriarcado, cumpre ressaltar que é uma forma de organização social que inferioriza a mulher. Não designa o poder do pai propriamente dito, mas o poder dos homens, ou do masculino, enquanto categoria social. As relações no patriarcado são regidas pelo princípio de que as mulheres estão hierarquicamente subordinadas aos homens, de modo que essa supremacia masculina atribuiu um maior valor às atividades masculinas em detrimento das atividades femininas, além de limitar a autonomia feminina e estabelecer papéis sexuais e sociais nos quais o masculino tem vantagens e prerrogativas, criando um sistema de opressão da mulher.
Nesse sistema, as mulheres são percebidas como destinadas ao campo do privado, por isso são interpretadas como pertencentes a um grupo subalterno, o que trará consequências intersubjetivas, sociais e políticas.
Na divisão sexual do trabalho segundo o gênero, o papel social atribuído à mulher, seja simbolizando a sua fisiologia e sua função procriativa e maternal, é de uma ‘cuidadora natural’, cujo dever repousaria na proteção da família e na manutenção de seu bem-estar, enquanto o papel do pai, além de prover o sustento, envolve questões de disciplina e de autoridade. As mulheres tenderiam a enfatizar a empatia e a compaixão, desenvolvendo um senso de moralidade focado nas relações e na preocupação com o outro. Não se trata apenas de um “lidar com as emoções”, como algo que acontece em qualquer situação humana, mas de usá-las como um instrumento para produzir um serviço que é de utilidade para toda a sociedade.
Contudo, a atribuição de valor e prestígio é diferencial aos diferentes papéis e posições ocupados, atribuindo um valor negativo e subalterno ao trabalho realizado pela mulher, embora seja reconhecida a sua necessidade.
Diante desse contexto histórico hierarquizado, verifica-se uma exploração feminina no ambiente do trabalho, no domiciliar e de produção capitalista. A desigualdade de gênero é uma realidade, e isto não é visto como injusto.
Porém, nessa estrutura social, os homens considerados como provedores econômicos, em muitos casos não o são de forma exclusiva, e as mulheres que também contribuem com seu trabalho para o sustento econômico da família tem a sua capacidade de trabalho desvalorizada. Da forma como é colocado a divisão sexual estabelecida sobre o trabalho do cuidado serve para a manutenção das assimetrias de gênero e apropriação iníqua do trabalho feminino, uma vez que a sociedade que valoriza o cuidado e as relações de cuidado torna-se mais igualitária e justa.
As mulheres oprimidas muitas vezes se sentem anuladas, com baixa autoestima, tendo suas vontades ignoradas e seus direitos violados. A abordagem da psicologia junto a essas mulheres, consiste em resgatar quem são como mulher, ajudá-las a se reconhecerem, levarem em consideração as suas vontades, seus limites, fazendo uma ressignificação da sua própria concepção feminina, e de não naturalização da opressão. Enfim, empoderar as mulheres para travarem a luta em busca de reconhecimento dos seus direitos.

