“Maus” e os ILEGÍVEIS

Tenho vários parentes e amigos que não gostam de livros. E não gostam porque a leitura é algo chato. Então, os livros são chatos. Silogismo à parte, seja irregular, regular ou outro qualquer, revela o quanto ler está fora de moda. Até mesmo aqueles que reputam o hábito da leitura necessário e proveitoso não leem. Conheço universitários que concluíram seus cursos e não se esquivaram de afirmar jamais terem lido nada além de trechos dos vários tratados e manuais e artigos e teses, e apenas esporadicamente. E se orgulham da façanha, balançando o diploma no ar. É mais uma vitória do jeitinho brasileiro, aquele capaz de desplugar qualquer possibilidade de luz enquanto se aventura a lutar junto às trevas.

Ao meu jeito, tento estimular um e outro, aqui e acolá, a desenvolver algum tipo de leitura, desde crianças e adolescentes até adultos e anciões. Mas, convenhamos, é uma tarefa árdua, dada a concorrência dos TikToks da vida.

Bem, tentei uma última cartada com um associado. Pensei: “é bem possível que a pessoa se interesse, já que tem desenhos e a história se desenvolve também por imagens, não apenas textos”. Pareceu-me brilhante. Depois da compra, falei com os meus botões: “talvez o meu consumismo tivesse me enganado e, assim, ao invés de comprar o livro para presente, estava pondo mais um exemplar na minha estante, já que as chances de sucesso não eram muitas, talvez uns 20%”.

Quando chegou, corri, e, após um breve discurso, mostrei-lhe o exemplar: “Maus”, de Art Spiegelman.

— O que é isso?! — disse entre surpreso e quase indignado — Pensei que fosse um par de meias ou o retrato emoldurado da vovó…

— Veja bem, pegue, vamos… tem muitos desenhos… é uma história em quadrinhos e os textos são poucos… você vai gostar… anda, pega!

Fez cara de nojo, como se estivesse a colocar meleca ou santinho de candidato na mão. Relutante, recebeu o livro. E balançou-o.

— Puxa, como é pesado!… Não, não quero. Vou acabar tendo bursite ou tendinite.

A verdade é que deixei a Graphic Novel e esperei alguns dias.

Na véspera do fim de semana, cheguei em casa e “Maus” estava sobre a mesa, com a mensagem: “Tentei, mas não deu.”. Peguei o volume, estava intacto, como se nunca fora manuseado. Não vou dizer que não fiquei decepcionado. Mesmo com as chances mínimas, não esperava fracassar.

Sentei-me desolado, o exemplar à frente, o símbolo da derrocada da civilização. Nada me tirava da cabeça que, em breve, os homens estariam gruindo pelas ruas e a lambuzar as paredes com os seus excrementos… Ops! Isso já não era novidade… Os sinais, aterradores. E Darwin estava completamente equivocado, ao menos quanto à humanidade: em franca involução.

Abri o livro e comecei a ler. Não parei até a última página. A história era, à primeira vista, sobre nazistas, judeus e o holocausto. Era mais que uma denúncia. A história também tratava do relacionamento entre pai e filho, Vladek e Art, e sobre o próprio livro. Veio-me a parábola do Filho Pródigo; o que era mais curiosidade em saber sobre a mãe, Anja, suicida quando Art tinha 20 anos, transformou-se em admiração e respeito pelo pai, mesmo com todos os impulsos mesquinhos e avaros. Era também uma história de amor entre Vladek e Anja, que não se extinguiu mesmo entre os horrores. Era a história de perdas, e não foram poucas, e, após décadas, ganhou contornos de vitória. Seja nos campos de concentração, nas vilas e cidades, no pós-guerra, ou depois, quando até mesmo as memórias se desarraigavam.

Quantas pessoas se beneficiariam do livro, caso se dispusessem a dedicar algumas horas? Quanto se pode ganhar? Conhecer? Entender?

Não sou afeito a HQ’s. Em décadas, esse foi o primeiro. Havia um preconceito de não se fazer boa literatura a partir de quadrinhos. Porém, agora, reconheço: a ignorância em conhecer o gênero e manter-me distante foi a razão verdadeira. E assim como posso me privar de outras experiências, sendo um leitor usual, imagino os que se abstêm por completo.

Não sei se farei a resenha de “Maus”; talvez sim, talvez não… Mas já não é mais por preconceito ou por desconhecimento. A pergunta é: alguém lerá? Como o Fábio Ribas certa vez me disse: “se você não fizer, quem o fará?”.

Então, farei e não farei… continuarei a tentar, e ler, e escrever… Porque alguém só pode falar daquilo que o coração está cheio1, e o meu transborda palavras.

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1Paráfrase ao que Jesus disse em Mateus 12:34 e Lucas 6:45.

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