Eu estava em um ônibus da Catarinense. Ia de Curitiba para Joinville, com planos de visitar a minha mãe e também falar com uma pessoa a respeito de um antigo projeto editorial. Atrás de mim, sentaram-se dois falantes exemplares da terceira idade, um homem e uma mulher. Fiquei escutando a conversa deles. (Sim, tenho esse saudável hábito. Para segredos, sou um túmulo, mas na captação de conversas alheias estou mais para cova coletiva.).
Os dois não se conheciam. Após se apresentarem, partiram da senhora as inevitáveis perguntas sobre o estado de saúde do companheiro de viagem, que em geral resultam em um relatório de doenças.
Não houve exceção aqui. Ele informou:
— Tive dois derrames há poucos meses. Contou também que era hipertenso e sofria de artrite.
— Tem catarata? — perguntou ela, buscando naquela fonte promissora algo com que tivesse mais afinidade.
— Foi retirada.
O assunto passou então ao motivo da viagem, mais uma vez por iniciativa da anciã, de 71 anos (ele tinha 72). Ele revelou que estava indo a Indaial buscar um remédio feito à base de ervas para a esposa cancerosa. Ele não depositava nenhuma fé naquele tipo de medicamento, mas a esposa se sentia melhor com ele. Explicou também que poderia pedir o remédio pelo correio, mas preferia ir buscá-lo pessoalmente, uma rotina repetida mês a mês havia nove anos.
Então, em resumo, era isto: um homem com a saúde debilitada empreendia todos os meses uma viagem dispensável a fim de comprar para a mulher cancerosa um remédio em cuja eficácia ele não acreditava.
A explicação? Ouvi-a também durante a conversa: ele queria fazer algo pela esposa doente, e “as coisas têm mais valor quando há serviço”.