RESULTADO BOMBA

Ela passou por mim com um andar que nunca havia visto. Um andar feminino, um andar imponente, de deusa, da própria poesia que vagava pelo pátio da Escola. Meus olhos a seguiam, meus versos de menino insistiam em descrevê-la. Era um sonho.

Estava na sétima série. Dona Odete, professora de História, quase não ria, falava grosso, firme e ninguém se atrevia com ela. Disse-se me uma vez, frente a turma, que eu era inteligente, que eu seria alguém. Quando ensaiei um sorriso de vitória, disse também, que eu era malandro para os estudos. Nunca esqueci daquela mulher, brava, enérgica, mas que gostava de mim.

Não era a malandragem que me fazia dispersar, eram meus sonhos, era Renata, que andava toda empinada com nariz para cima e óculos redondos. Passavam-se os dias, meu amor platônico ia aumentando. Renata estava nos meus versos juvenis, nas folhas dos meus cadernos e, ora ou outra, a via na imagem da professora que ensinava matemática. Meu primeiro amor de verdade, com toda força de um coração de quatorze anos, amor dos poetas românticos, inacessível.

Ela sabia disso, nunca falei, mas ela sabia. Quando estamos nesse estado, nossos olhos se encarregam de espalhar o que sentimos.

Planejei minha vida para o ano seguinte, um ano inteiro ao lado da menina mais linda da Escola. Renata cursava a sexta série e, para que o meu plano funcionasse, teria que ser reprovado. Não fiz muito esforço, assinei algumas avaliações em branco, esqueci de alguns trabalhos, Dona Odete se decepcionou comigo. Resultado “Bomba”.

Tive uma falsa sensação de dever cumprido. Falsa mesmo. Traí minha Escola, minha família, meus amigos que foram para a oitava, enfim, traí a mim mesmo. Tudo por causa de um sonho, tudo por causa de um plano idiota. Nenhum amor valia isso.

Procurei o nome de Renata na lista da minha sala. A angústia bateu mais forte, experimentei a sensação de remorso. Procurei em todas as listas da sétima, nada. Renata havia sido reprovada também.

Meu mundo caiu. O tempo para nós não passou, estávamos nas mesmas séries, no mesmo colégio, no mesmo horário. Naquele ano, inevitavelmente, eu fiquei mais velho e havia me esquecido de crescer, aliás, perdi a oportunidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados