Tenho um amigo que é apaixonado por livros. Ele possui uma biblioteca em casa, um quarto transformado em ambiente quase sagrado. Faz questão de deixar ligados, 24 horas por dia, dois potentes desumidificadores e uma luz azul no teto que, segundo ele, evita a oxidação do papel.
Ele morre de ciúmes da coleção, que passa de cinco mil títulos. Raras pessoas são convidadas a entrar naquele santuário. Eu fui, mas debochei de seu cuidado exagerado. Ganhei o apoio de sua esposa e rimos muito à custa do hábito excêntrico. Sei que nunca mais serei convidado a retornar.
Certa vez, o casal contratou uma nova empregada. Querendo mostrar eficiência, logo no primeiro dia, ela aproveitou a ausência do patrão e resolveu faxinar o local. Anunciou toda feliz: “Abri todas as cortinas e janelas para deixar entrar sol e passei um pano úmido naqueles livros, que deviam estar há muito tempo sem limpeza”. Meu amigo quase surtou. Foi parar no hospital.
Ele não para de adquirir novos títulos. Já gastou com livros o suficiente para comprar uma boa lancha (ele é fascinado pelo mar), mas prefere navegar em suas leituras. Coincidentemente, suas obras preferidas são Moby Dick e O Velho e o Mar. Existe gosto para tudo. Eu prefiro colecionar latas e garrafas de cerveja. Não bebo, mas gosto dos vasilhames e rótulos. Devo ter umas três mil. Guardo todas catalogadas no sótão, onde instalei uma luz negra — que é para ajudar a conservá-las.