NEM SÓ DE PÃO

Está aí um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos. Mas que é isso pra tanta gente?” (João 6.9).

Onde antes ecoava a risada robusta de um pai e o cheiro de guisado, agora restava apenas o silêncio poeirento A poeira suspensa no ar da casa parecia ser a única coisa que preenchia o espaço. da viuvez. A mulher olhou para as mãos calosas, vazias, inúteis diante de uma economia que não precisava de órfãos.

No canto, o filho era um feixe de ossos e esperança. O menino de olhar febril apertava o estômago com as mãos pequenas. A dor da fome não era mais uma pontada; era um inquilino constante que roía suas entranhas.

— É preciso fazer render a comida, meu filho — sussurrou a mãe, a voz falhando como uma corda de harpa prestes a arrebentar.

Ela depositou no pequeno cesto a última linha de defesa contra a morte: cinco pães de cevada, duros como pedra, e dois peixes secos pelo sal e pelo sol, pequenos demais para serem chamados de refeição, mas grandes o suficiente para serem o seu “tudo”.

O menino caminhava com o mundo pesando em seus ombros magros. Cada passo em direção à cidade era uma batalha contra o instinto. O cheiro do peixe salgado subia do saco, torturando seu olfato. Ele poderia comer um pedaço. Apenas um. Mas a voz da mãe ecoava: fazer render”. Tinha que achar alguem que comprasse mirrada a mercadoria.

Ao chegar às colinas de Betsaida, o cenário era surreal. Milhares de pessoas — uma maré humana de túnicas suadas e rostos cansados — sentavam-se na grama. O calor era um manto pesado. No centro de tudo, um homem falava. Suas palavras não enchiam o estômago, mas, estranhamente, faziam o menino esquecer a própria náusea.

Quando um pequeno grupo de homens o abordou, ele sentiu o pânico. Um deles, de olhar bondoso mas preocupado, perguntou o que ele carregava.

— Cinco pães e dois peixes. É tudo o que temos. — respondeu o menino, apertando a sacola contra o peito. — Minha mãe disse para fazer render.

— O Mestre fará! — disse um dos homens.

A entrega foi um ato de fé, crendo contra a evidência da barriga vazia. O menino entregou a sacola. Ele viu o Nazareno erguer os pães e peixes para o céu. Não houve espetáculo de luzes, apenas um agradecimento profundo que parecia vibrar no solo.

Então, o absurdo aconteceu. As mãos do Profeta depositavam nos cestos e destes brotavam alimentos que a lógica humana não autorizava. O pão, outrora seco, agora exalava o perfume de trigo fresco, como se tivesse acabado de sair do forno de um palácio. O peixe, antes uma carcaça seca, agora era só cheiro e suculência.

“Ele partia o pão, mas o pão nunca terminava. Era como se as mãos do Homem estivessem repetindo os dias da Criação em cada cesto” — pensava o menino.

O garoto comeu. Comeu até que a dor na barriga fosse substituída por uma satisfação que ele nem lembrava existir. Mas o milagre não parou ali. Ao final, ele recebeu seu cesto de volta. Não estava vazio. Estava pesado, transbordando com as sobras daquela festa no deserto.

Ele correu. As pernas, antes trêmulas, agora tinham a força de um gamo correndo no campo. Ao entrar em casa, ele não disse nada; apenas despejou o conteúdo sobre a mesa de madeira nua.

A viùva caiu de joelhos. O cheiro de pão fresco inundou a casa paupérrima, expulsando o cheiro de poeira e morte.

— Onde você conseguiu isso, meu filho? Quem comprou o nosso pouco? — soluçou.

— Ninguém comprou, mãe. Eu dei ao Profeta chamado Jesus e Ele multiplicou — entre choro e riso, conta tudo pra mãe.

Depois, pegou a mão da mãe. Seus olhos não estavam mais fixos no infinito de desespero, mas no rosto dela.

— Ele disse que “nem só de pão vive o homem”, mas eu não sabia o que isso significava até que Ele multiplicou os pães e multiplicou suas palavras no meu coração. Vamos, mãe. Você precisa ouvir a voz d’Ele.

A fome do corpo tinha acabado. Enquanto caminhavam de volta para a colina, ambos sentiam uma nova fome: a urgência de seguirem aquele que satisfaz a fome da alma.

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