Memórias

Eu tenho uma memória singular. Isso não é um autoelogio nem autopromoção. É que do alto dos meus sessenta e seis anos, indo para sessenta e sete, ainda não encontrei alguém que tenha alguma lembrança tão precoce como a de menos de um ano (você não leu errado, mas é claro que não tenho certeza) e tantas outras com menos de quatro anos.
A mais antiga lembrança é eu sentado em um travesseiro, na cabeceira da cama de minha mãe, enquanto tentava mexer no cesto de agulhas dela que, receosa e didática, me deu um leve tapa para que não me atrevesse a mexer em coisas tão perigosas. Posteriormente, quando já andava — imagino — ganhei uma enorme carreta de madeira, que sentado na cabine, andava pelo terreiro. Talvez aos dois anos ou menos.
A paisagem verde e vazia, com fezes de vacas que eu observava curioso por serem circulares e as vezes soltarem fumaça, quando recentemente postas pelas vacas e bois contra o vento frio das manhãs. Ainda me lembro de uma miniatura de avião, acho da Varig — não há como ter certeza: talvez de 1961 ela já existisse… Carece de eu conferir esse dado — que ganhei da saudosa tia “Lilia”.
Vale lembrar, curiosamente naquele tempo, minha mãe dizia que eu não conseguia falar todas as palavras corretamente. A tia Maria da Conceição Silva, tia por amizade de minha mãe, era, como disse “tia Lilia”; meu meio irmão, vinte anos mais velho do que eu, era “Tatá”. Meu tio, irmão biológico de minha mãe, Sebastião Pinto de Souza, era o “tio Bicanca”. Muito mais tarde consegui saber e falar os nomes corretos das pessoas: “vovó Idalina”, por exemplo.
Ao andar pelas ruas, ficava de olho nas pernas das moças e comentava , segundo a minha mãe, sem nenhum comedimento: “pérrafeia”, “pérrabunita”. Ao que as mulheres, sempre mais atentas às crias alheias, perguntavam: “O que ele está falando?”; ao que minha mãe, para não render assunto respondia: “Nada não! Ele tem a língua presa, tá aprendendo a falar.”. A língua presa era apenas desculpa para amenizar a situação. Eu naquele tempo, naquela idade, estava apenas distinguindo que moças tinham “pernas bonitas” e “pernas feias”, algo que criteriosamente faço até hoje.
Lembro-me de uma tempestade em que fomos acolhidos em um sítio, uma senhora nos abrigou, pois tínhamos que seguir do final do ônibus para a nossa casa, à época, por uma longa rua de terra, um lugar aos pés de um monte, muito aprazível, mas cuja chuva não faria bem a minha mãe e muito menos a mim. É a situação bíblica, prevista por Jesus de que nem um copo d’água ficaria sem recompensa. Deus a tenha, a tal senhora, pelo que fez por nós.
Em outro dia chuvoso, um senhor deu carona a minha mãe, no ponto de ônibus, em um enorme carro preto até o centro da cidade, do Bairro Santa Efigênia, na rua Euclásio, do final dela até o centro de Belo Horizonte.
Outra lembrança engraçada, ao menos para mim, foi quando vi uma hélice na ponta de um bambu. Segundo mamãe, isso por volta dos meus três anos, o homem, naquele tempo, tentava gerar energia elétrica para a sua casa a partir da tecnologia eólica.
Sempre fui atento a detalhes, e minha vó, uma mulher pequenininha que teve treze filhos, dos quais apenas três sobreviventes, todos bem maiores do que ela, tinha uma característica que só se transmitiu na minha tia Efigênia, e no filho dela, o meu primo Antônio. Trata-se do baixo canal do nariz, uma característica presente em povos africanos e orientais como chineses, nepaleses, etc. Mesmo com menos de quatro anos (sei disso pelos lugares onde morávamos e por onde mamãe trabalhou), eu já notava o que ninguém, ou quase ninguém, reparava. Esta característica do nariz, diferente de outras etnias, faz com que o túnel seja tão baixo entre os olhos que em alguns casos quase desaparece.
Tinha o “Jeep”, não o carro, mas um cão macho de pelagem bege que andava pela casa em que minha mãe trabalhou de governanta; nunca me atacou, nunca latiu para mim, sempre respeitoso e sereno. Um dia, ao ir com minha mãe em um pequeno bar, onde o dono dele frequentava, um dos solteirões da casa, foi parcialmente esmagado por dormir debaixo de um carro estacionado, enquanto o dono se gastava nas “canas”. Senti-me triste, naquele dia, ao recordar o Jeep passando por mim na vasta garagem e dele morto junto ao meio fio, no calçamento de pedras retangulares.
Por hora, contarei só mais um prodígio da memória: por ocasião do Natal, no ainda hoje existente Hospital da Baleia, houve uma encenação de presépio vivo, eu tinha por volta dos dois ou três anos. Estava de pé, ao lado de mamãe, quando dois atores, uma linda e sorridente moça e um rapaz igualmente sorridente de barba escura, possivelmente Maria e José, afundaram no chão, ao menos meio metro. Posteriormente, compreendi o que ocorreu: eles estavam sobre a tampa de uma caixa de esgoto ou água pluvial, a tampa se quebrou com o peso deles. E nada disso foi encenado.
Após cinquenta anos, o filho de uma grande amiga e colega, também professora, se envolveu em um acidente de carro, salvando-se milagrosamente, mas com algumas fraturas importantes. Nessa época, um dos hospitais referência para casos assim era justamente o Hospital da Baleia. Como a visita ao rapaz era restrita, somente a minha esposa e a mãe dele puderam vê-lo. Aproveitei a oportunidade, pois em décadas jamais retornei ao hospital; aliás, jamais vou a algum lugar sem um motivo mais ou menos sério ou necessidade absoluta, e dei uma passeada pelo lugar.
Localizei, e fui exatamente ao local onde há cinquenta anos, o casal de atores pareceu afundar no chão. Pude olhar para a mesma caixa de bueiro, e ali, com uma tampa mais segura, na mesma esquina do grande prédio onde foi encenado o Natal de Jesus não pude deixar de rir, apenas um pouquinho, do infortúnio artístico, fora do script.
Mas atenção: nunca guardo a placa do meu carro, sempre ou quase sempre esqueço meu CPF, nomes de ruas e endereços completos onde já morei… E não conte para ninguém: as pessoas com as quais trabalho há anos não seria capaz de enumerar os nomes delas. Dou aulas para mais de mil alunos, e, praticamente, não sei nome de nenhum deles. Senhas, com muito esforço sei de cor umas cinco, e sempre tenho que relembrá-las; é um inferno! Por outro lado, dou aulas para diferentes séries, todas de cor e planejadas. Nunca estudei para concursos, vestibulares, etc. E sempre passei em lugares bastante desejáveis e concorridos. Passei no concurso para professor de Artes, na rede estadual em segundo lugar e fui o primeiro a escolher a escola. Quase nunca falo disso, pois acho que as pessoas não acreditam…
Talvez seja a razão da minha esposa marcar um psiquiatra para mim, mas antes me advertiu: o dia que você for, não escapa!
Não deu outra: na primeira consulta, quinze dias de licença!

Helvécio S. Pereira

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