CRÔNICAS ESCOLARES I

Nota: esta é a primeira de uma série de não-sei-quantas crônicas-contos escolares que pretendo escrever. Algumas coisas eu vi, outras eu vivi, e outras eu só ouvi. Há, ainda, aquelas que eu nem vi, nem vivi, nem ouvi — só imaginei. Ao leitor caberá a tarefa de decidir quem é quem. O fim de uma história é a deixa para a próxima. Espero que se divirtam.

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Aula prática de redação. A professora propôs à classe um tema livre. Era a chance que Paulinho queria para mostrar os seus dotes.

“O papel social da geladeira”.

A professora, que passava entre as carteiras inspecionando os alunos, achou curioso o título escolhido pelo aluno.

— O que significa isso, Paulo Roberto?

— A senhora vai ver, professora. Vou provar por a mais bê que a geladeira é um importante indicador social.

— Como assim, menino? — indagou a professora, rindo e curiosa. — O modelo da geladeira ou a mera existência dela numa casa indica a condição social da família, é isso?

— Nada disso não, professora.

— O que, então?

— É simples, professora. Na sua casa é todo mundo que a senhora deixa abrir a geladeira?

— Não…

— Pois então. Está provado o meu ponto. As geladeiras definem os níveis de relação social. Mas deixe-me colocar por escrito, sim?

— Está certo, “Sr. Sociólogo” — disse a professora, que no fundo parecia espantada por nunca haver pensado nas geladeiras sob essa perspectiva.

Na fileira contígua, outro título chamou a sua atenção: “O pigarro precede a resposta”.

— “O pigarro” o que, Maria Clara?

— “Precede a resposta”, professora.

— Poderia me explicar como, por favor?

— É que se você perguntar a uma pessoa se ela está melhor da garganta, professora, antes de dar a resposta ela vai pigarrear. Acho que esse é um comportamento padrão dos seres humanos.

— E com base em quê você diz isso, mocinha? — perguntou a professora, rindo, com as mãos na cintura.

— Com base na minha experiência, professora. Ainda hoje eu perguntei ao Paulinho se ele estava melhor da garganta, e adivinha o que ele fez antes de responder?

— Pigarreou?

— Sim!

— E você está generalizando o comportamento humano com base em um exemplo isolado?

— Não, professora. É que semana passada eu perguntei o mesmo a João Vitor e a Polly, que ficaram ruins da garganta após a gincana. Então quis confirmar a minha tese com o Paulinho, que estava meio rouco ontem.

“Primeiro, um sociólogo. Agora, uma antropóloga-laringologista. Estou feita!”, pensou a professora.

— Bem, Maria Clara. Como garganta de professora nunca está cem por cento, então acho que estou dispensada de suas observações, não é? — Fez um cafuné na cabeça da aluna e saiu para continuar sua inspeção.

Mas não viu nada de mais que chamasse a sua atenção. Sentou-se ao birô e passou o restante do tempo fazendo toc-toc com as unhas na mesa e observando o quanto o esmalte estava desgastado. Instintivamente, olhou para o calcanhar e viu que estava sujo. Para ela, não havia nada que ferisse mais a dignidade de uma professora. “Meu Deus, estou parecendo uma estagiária! Só falta agora o batom ter-se apagado!”, pensou. Pegou o espelho na bolsa e constatou o óbvio: estava. Retocou discretamente os lábios, mas não havia nada que pudesse fazer quanto ao esmalte e o calcanhar. E não adiantava pensar que os alunos não reparariam nessas coisas. Não depois do que viu nos temas das redações de Paulinho e Maria Clara.

Findo o prazo de quarenta minutos, mandou que os alunos assinassem seus trabalhos e deu ordem para que o representante da sala os recolhesse. Organizou a pilha em ordem alfabética e, após fazer uma leitura em diagonal dos textos, foi chamando os autores para que lessem para os demais colegas de classe.

De A a Z o que se ouviu foram basicamente platitudes. Exceto, como era de se esperar, da parte de um certo P e uma certa M.

Maria Clara mal leu o título de sua redação e a sala desabou em riso. A professora julgou a reação não apenas pelo título um tanto pomposo (a aluna era meio metódica mesmo), mas sobretudo porque os anteriores não passavam de lugar-comum: “A importância da educação”, “O meio-ambiente e a saúde”, “A televisão e os meios de comunicação de massa” e coisas tais que, convenhamos, não prendem ninguém.

“A pessoa pode estar com saúde para dar e vender, mas se você perguntar se ela está melhor do resfriado, invariavelmente ela vai fungar, vai cuspir, vai tirar um lenço de sabe-se lá Deus onde e vai dizer a você, com a cara mais lavada do mundo: ‘Estou melhorzinha’”, arrematava um dos parágrafos de Maria Clara. A gargalhada foi geral.

Ao fim da leitura, a professora pediu uma salva de palmas, mandou-a sentar-se e chamou Paulo Roberto. Mesmo um tanto desconfiado pelo que acabara de ouvir, nosso pequeno sociólogo postou-se todo empertigado na frente da sala e começou a ler sobre “O papel social da geladeira”. Mais risos.

“A geladeira é menina prudente, pois só abre a boca para falar com quem conhece”, dizia um trecho. A professora captou bem o lirismo da frase, entendendo ser esta uma metáfora para o abrir da porta da geladeira. Genial. Maria Clara, contudo, ficou encafifada, pois no dia anterior fora à casa de Paulinho e este a pegou abrindo o “indicador social” da família.

A aula terminou e os alunos foram saindo. A professora, ainda pensando nas redações que ouvira, organizava alegre os papéis sobre o birô. Mas então percebeu que dois alunos ainda não haviam saído.

— Paulinho.

— Oi, Maria Clara.

— Estou encabulada com uma coisa.

— Estranho… eu também estou.

— Por acaso a sua redação foi uma indireta para mim?

— Eu já ia perguntar o mesmo.

A professora interveio e perguntou o que estava acontecendo.

— Estou me recuperando de um resfriado, professora. E a Maria Clara…

— E eu estive na casa dele ontem e ele me flagrou abrindo a geladeira, professora! — interrompeu ela.

— Ora, ora, se não temos aqui um pequeno conflito — disse a professora com aquela voz apaziguadora que só as professoras têm. — Vamos com calma, queridos. O que os faz pensar que a redação de um foi para se vingar da redação do outro, se nenhum dos dois sabia sobre o que o outro ia escrever?

Ficaram pensativos.

— Vamos saindo, que eu preciso lavar esse meu calcanhar, e seus pais já devem estar esperando por vocês.

Ao saírem da sala, deram com o professor novato. Seu semblante parecia o de um cachorro que acabou de cair do caminhão da mudança.

Leonardo Bruno Galdino

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