“Um Homem Bom é Difícil de Encontrar”

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O que dizer de Flannery O’Connor?

Fui levado à leitura pelos comentários entusiastas do Prof. Rodrigo Gurgel e do meu amigo, ainda que um amigo intermitente, Leonardo Galdino. Comprei-o, e amargou a estante e o envoltório por três longos anos. Antes deles, nunca ouvira falar da autora, e devo-lhes a gratidão de tê-la me apresentado. 

Quando, enfim, tomei-o em mãos, arranquei-lhe o plástico e comecei a leitura, vi-me diante de uma obra impactante, brutal, macabra, em alguns momentos até mesmo fantástica, mas suficientemente bela, lírica e, não se assuste, espiritual. Sim, Flannery descreve a incapacidade humana de alcançar a paz interior e entre os seus semelhantes, mesmo que a busque com ânsia e persistência. Via de regra, o homem é mau, em sua soberba, independência, autossuficiência, egoísmo e na frieza do trato comum. Não parece haver solução; e a morte, algumas vezes, pode ser um alívio, até mesmo para o leitor compadecido com a dor, a angústia e o sofrimento da(s) personagem(ns). 

Vivendo e descrevendo pessoas, lugares e situações dos EUA sulista, a autora perpassa pela vida de agentes e indolentes, com a candura de uma madre ensinando repetidas vezes aquilo que o aluno teima em não aprender. Todos somos pecadores, em maior ou menor grau — se um bandido pode matar friamente uma velhinha com tiros no peito, enquanto ela se considerava, por toda a vida, uma alma boníssima. Diante da morte iminente, os pecados são-lhe expostos — percebe que ela não é muito diferente do facínora. E assim, sonhos são desfeitos e desejos rejeitados… Um círculo vicioso leva o homem a se prender na própria carência, que pouco ou nada pode colaborar para a sua interrupção. Quase nada sobra em um mundo fadado ao fracasso, se a busca de salvação se encontra no homem em queda. 

As pessoas são de um automatismo absurdo, de uma indiferença desagradável, ou uma proximidade doentia. Um dos exemplos encontra-se no conto “Gente boa da roça”, onde uma jovem loura e corpulenta, que perderá uma das pernas na infância, após a maioridade, troca o nome de batismo “Allegra” por “Hulga”. A mãe não conseguia entender a opção da filha em apropriar-se legalmente de um nome que a remetia a “um casco largo e cor de pulga de um navio de guerra. Recusava-se a usá-lo”. A filha demonstrava rejeitar os valores familiares, sem qualquer apego ou gratidão pelo cuidado e esmero devotados. Ela declinava de qualquer convenção, colocando-se em posição arrogante, orgulhosa de seus feitos, ainda que fossem uma proteção natural para a sua deficiência. Mas tudo desmorona com a chegada de um caixeiro-viajante. Que planeja humilhá-la, com um plano ignóbil de roubar-lhe o membro artificial. 

Se o intento foi minuciosamente planejado e aplicado, a fim de dar o golpe, a vítima, insensível, dura, orgulhosa de seus diplomas e cultura, não é menos inocente. Na verdade, fico a pensar se ela não colaborou em alguma medida para cair no ardil, pois considerava a sua razão e intelecto o suficiente para compensar a perna perdida na infância; ao fazer-se superior diante dos seus semelhantes. Se lhe faltava o membro, sobrava o desprezo às pessoas, a Deus e a si mesma — ainda que, nesse aspecto, não tivesse a percepção suficiente para compreendê-lo. O orgulho gélido com que se exaltava, desdenhando da própria mãe, da empregada — uma mulher que tinha duas belas filhas e uma paixão lânguida por tragédias, doenças crônicas e incuráveis — e em suas demais relações, tornavam-na não a mais esperta das mulheres, como supunha, mas uma presa fácil… e imaginar-se inquebrável culminou em centenas de estilhaços.

Nos momentos finais, sem se locomover, ouviu o algoz lançar-lhe em rosto a sua estultice, enquanto guardava a prótese na valise. Ele também é um incrédulo, niilista, explorador de velhinhas e mulheres ingênuas, orgulhoso dos seus feitos, impenitente, vendendo Bíblias e livros religiosos como se um religioso fosse: congelava as pessoas em cifras. Aqui, se coloca em xeque-mate a fragilidade do racionalismo, como âncora das virtudes humanas e da ostentação — os adeptos carregam rótulos de ingênuos. 

Ainda assim, a aleijada queria um relacionamento. Desprezando a mãe e conterrâneos, seduzida pelo jovem, quatorze anos mais novo, e o apelo que ele faz à sua maneira, à beleza de Hulga.

No fim das contas, toda a pompa intelectual, o cuidado racional, o ceticismo como estilo de vida, sucumbiu ao mais comum dos rogos: a vaidade. A sinceridade dos românticos deu lugar à lábia do astuto, a arrancar a segurança, a intimidade, guardada estoicamente na fortaleza da mulher. O que considerava o alicerce do caráter, foi a sua fraqueza, o calcanhar de Aquiles. A força não estava na confiança, mas no ressentimento, e nele não existe pujança. A debilidade acabou por tomar-lhe a prudência e a aproximá-la perigosamente da insensível empáfia do inimigo — a mesma que a tornou alvo. 

Ela não quis ver o que estava diante dos olhos e por detrás deles. Apenas a fidúcia de não ser possível o engano. E o que se segue?… Pouco a pouco ela se encanta, abre a guarda, se submete, crê. Não no que vê, mas no que não vê.

Soberba e queda caminham juntas; autoengano é a própria morte, se não se desperta do letárgico delírio, do orgulho e das mentiras incansáveis que alimentamos. Indefesa, nada pode fazer diante da  ridícula exposição, enganada por um garoto iletrado mas astuto. E a constatação dolorosa do seu erro a silencia. Não mais apela à civilidade, ao bom-senso: é a vítima à mercê do próprio esnobismo. A sua fé cai por terra, desbarata-se, como castelo de areia em meio à tormenta. 

Não sabemos o que aconteceu depois, enquanto o jovem se afastava triunfante do celeiro, onde abandonou-a. O que restava a ela? O arrependimento? Amargura? Vingança? Perdão?… A autorredenção é um pavio sempre molhado.

O ceticismo tomou-a de si mesma: não era confiável, nem suficiente. Dele, a sua revanche era itinerante: jamais passaria disso, da mesma forma que o cego vê apenas a escuridão. 

Flannery trata, via de regra, da impossibilidade humana de apagar as manchas do pecado original, enquanto o homem labora incessantemente para extinguir de si o “Imago Dei”, como se o negar a Deus e o seu auxílio pudessem impedi-lo da miséria e desgraça nas quais sucumbiria. 

Não é um livro triste, não premeditadamente triste. Chega a ser engraçado em vários momentos. O desacerto das relações humanas pode resultar em leveza e divertimento. Também não é um livro sisudo, amargo, pois a autora indica um caminho em meio à estranheza de suas histórias. E nada disso é pouco, quando se está às voltas com a vulnerabilidade e desequilíbrio humanos — mesmo enquanto se acredita soberano de si. Talvez, por isso, ela insista em afirmar, no título e um dos contos, que “Um homem bom é difícil de encontrar”.

Sem Deus, o homem é o que é, e não pode deixar de sê-lo, por mais simplório que isso possa parecer.

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Avaliação: (****)

Título: Um homem Bom é Difícil de Encontrar

Autora: Flannery O’Connor

Editora: Nova Fronteira

No. Páginas: 224 

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Jorge F. Isah

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