Carmira, minha avó paterna e pioneira da Assembleia de Deus em Jaguaruna (SC), era uma evangelista incansável.
Na década de 1980, mudou-se para Itajaí com os dois irmãos que moravam com ela, tio Lilino e tia Lica, ambos solteiros.
Praticamente inativa no trabalho de forrar botões, com que reforçava sua minguada pensão de viúva, o peso da idade, agravado com algumas doenças, quase não a deixava sair de casa.
Assim, era difícil para ela encontrar uma pessoa a quem pudesse evangelizar. As pessoas de seu novo círculo social eram parentes e uns poucos conhecidos e novos amigos.
Entretanto, já com mais de 80 anos, bem poderia recolher as armas e passar os últimos anos de sua vida no sossego de saber que não chegaria ao céu de mãos vazias.
Contudo, ela era incorrigível. Sem ver rostos novos em casa e sem poder ir atrás de outros alvos, resolveu assestar sua metralhadora evangelística no portão de sua casa, na rua José Quirino.
A estratégia era esta: cada pessoa que passava era chamada por ela, fosse quem fosse. Moças, rapazes, anciãos, donas de casa, todos tinham de parar para ouvi-la. Estivessem indo para o bar ou a caminho da missa, todos eram reencaminhados a uma igreja evangélica.
Se alguém seguiu a sua recomendação, não se sabe. Contudo, um ministério era exercido ali. Simples? Sem dúvida. Mas não devemos nos esquecer de que a simplicidade é característica do evangelho, diria mesmo uma obrigação cristã.
E é difícil imaginar uma representação mais bela dessa simplicidade que uma octogenária debruçada numa cerca dando testemunho de Cristo aos passantes.
Judson Canto