No Reino da Bicharada

Houve eleições no Reino da Bicharada, e o Tamanduá ganhou a coroa. As formigas, cupins e outros térmitas, protestaram ao alegar fraude nas urnas. Foram inúmeras tentativas de se reverter a diplomação do novo rei, mas todos os apelos helmínticos foram em vão. Sequer analisados pela Corte da bicharada, presidida pelo Ornitorrinco e o Porco-Espinho como vice. Algo a ajudar a enfraquecer os pedidos das formigas e seus pares, foi o surgimento de uma dissidência em suas fileiras. O grupo das formigas arco-íris se rebelou contra os agravos dos formigueiros e cupinzeiros alegando preconceito contra o Tamanduá. Com o decorrer dos dias e semanas, e as recusas automáticas da Corte, os argumentos das formigas arco-íris ganharam eco, e até mesmo as mais antigas e sábias formigas se convenceram de não ser correto e “humano” julgar o Tamanduá. Certamente, muito do que havia sido dito era mentira, coisa de formiga fascista, e alguns chegaram a lançar-se energicamente contra a fake-news a se alastrar nas redes sociais: os insetos serem o principal petisco dos mamíferos.

Quando assumiu o reinado, o Tamanduá constituiu uma guarda particular, formada por porcos-espinhos, ornitorrincos e outros confrades,  aumentou os impostos e iniciou a reforma térmite, desapropriando cupins e formigueiros, a deixar seus antigos proprietários à míngua. O argumento, finamente elaborado, era existir milhares de formigueiros e cupinzeiros no Reino da Bicharada, e ainda assim nem todas as himenópteras tinham acesso ao conforto e regalias. Em seus lugares, ergueu-se grandes castelos onde o Tamanduá e sua corte refestelavam-se em muita comilança, bebedeira e orgias.

Novamente, os artrópodes  conclamaram seus pares ao protesto. Em resposta, o Tamanduá justificou seus atos dizendo não se considerar um tamanduá, mas que se sentia uma formiga. Foi o suficiente para as formigas arco-íris apoiarem-no e propagandear aos quatro ventos que, se um tamanduá podia se sentir formiga, elas também podiam se sentir tamanduá, e como tal, nem um, nem outro, podia ter cerceado o seu direito a ser o que quisesse; cada um devia ser feliz como queria e era dever dos demais aceitar sem qualquer reclame. Foi o suficiente para extinguir os protestos e receber o endosso, numa carta aberta a favor da liberdade, da Ordem das Arthropodas da Bicharada, vulgo O.A.B. Alguns insetos, especialmente os mais famosos e endinheirados, gastavam fortunas para prolongar seus focinhos e se parecerem com o tamanduá, fazendo a alegria de cirurgiões plásticos e o estardalhaço ululante da mídia. Não se viu, do outro lado, qualquer movimento nessa direção, de alterações estéticas; secretamente, os tamanduás que desejassem a aparência de outra espécie eram coagidos e “estimulados” a permanecerem como tais, e a manter o mais profundo silêncio sobre o assunto. Quem insistisse, desaparecia, simplesmente.

Um belo dia, quando não havia mais formigueiros e as formigas começaram a viver em esgotos e se alimentar de detritos (muitas se consideravam baratas, ratos, lacraias e escorpiões), o Tamanduá, em declaração na rede de tv e rádio estatal, afirmou, a partir daquele momento ser novamente tamanduá e, como tal, voltaria a fazer aquilo que seus pais, avós e gerações e gerações de tamanduás sempre fizeram: invadir formigueiros e cupins a fim de se saciar. Claro que ele mesmo não ia até esses lugares, mas seus sequazes, ornitorrincos e porcos-espinhos, se encarregavam de abastecer as despensas dos manjares e iguarias feitos com os seus insetos prediletos. Nem mesmo as antigas aliadas, as formigas arco-íris, escaparam. Eram servidas nos lautos e fartos banquetes, assadas, cozidas, fritas e, não raro, ainda vivas, aumentando assim o prazer insaciável do Tamanduá e seu séquito.

Jorge F. Isah

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Nota: do livro “A Bula do Placebo”, disponível à venda em kalamos.com.br

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