Vivendo em um mundo que confunde estar só com sentir-se só, ter vontade de silêncio, momentos de paz e reflexão parece cada vez mais suspeito. E as pessoas, em suas confusões, acabam por buscar os famosos “especialistas”, que se perdem em palpites e conceitos, esforçando-se em esclarecer que a solução dos dilemas está ao alcance das mãos, bastando encontrar, entre dezenas de terapias e métodos, a solução para os desvios de sociabilidade, mesmo parecendo, na maioria das vezes, um placebo a algo quase inevitável.
Hoje, você não pode dizer que gosta de estar sozinho. Tudo gira em torno de uma socialização artificial, nada parecido com os nossos antepassados, que se agrupavam para caçar, construir refúgios e habitações, aquecer-se, proteger-se — em resumo, sobreviver. O que restou? Algo postiço, que força as pessoas a rirem juntas — de coisas nada engraçadas —, a arriscarem-se em saltos e situações inusitadas, apenas para aquela foto no feed e o like — às vezes com finais trágicos.
Entre o que é e o que se sente, há uma boa distância, pelo menos para os sóbrios, os mais reservados e sábios. O que nos leva à condenação de sermos deprimidos ou portadores de alguma síndrome. Aliás, nada contra o desenvolvimento da ciência, mas essa insistência de rotular tudo — como se tudo fosse um código de barras — leva certamente à fragmentação da realidade e a uma diminuta capacidade de superar dificuldades e obstáculos na vida.
Não é que não seja prudente buscar socorro, pois é. O que não se pode é caçar chifres em cabeça de cavalo e se escorar em desculpas para um desastre meticulosamente planejado, uma derrota anunciada, e da qual se considera inocente… sem qualquer colaboração.
Como eu dizia, hoje você não pode falar que gosta de solidão. Estará na contramão, pois, ao ver de muitos, não existe solitude benéfica: um estar só que não signifique depressão, abandono, desistência, incapacidade de socializar, distância forçada do mundo e das coisas mundanas. Simplesmente alcançar uma situação de plena paz, sossego real. A solidão como refúgio de alguma decepção deve ser tratada e uma ajuda é necessária. As outras devem ser administradas pela própria pessoa.
Falando de mim mesma: depois de uma vida agitada, estou amando ficar sozinha, depois de ter vivido tanto tempo para o mundo e para o que o mundo exigia que eu fizesse: trabalho, lazer e compromissos de toda ordem. Como é bom não ter uma agenda para abrir!
Quando me sento e me disponho a ler ou assistir a qualquer coisa, a conversar comigo mesma — sim, eu converso comigo mesma e até brigo, se necessário —, não tem preço. Uma verdadeira recarga de bateria física e espiritual.
A minha madrasta não gostava de ócio, em qualquer lugar que estivesse. Ela sempre me mandava ocupar a mente, para não pensar em coisas que não me fizessem bem. Estar só, em descanso, não é exatamente se entregar ao nada, mas ocupar esse tempo com algo produtivo e inspirador. Ela não estava de todo errada em não me deixar olhando o vazio; mas, hoje, “goxto”, e muito, de ficar sozinha.
E que ninguém me incomode!
Estejam todos avisados!
Rosemare Rocha Gomes