Quem foi Richard Wurmbrand?
Ele nasceu em Bucareste, Romênia, em 1909 e faleceu em Torrance, EUA, em 2001. Pertencia a uma família de origem judaica, e mudou-se para Istambul, Turquia, quando criança. Aos 9 anos, perdeu o pai, e apesar de não possuir uma educação formal refinada, era leitor voraz e, antes dos 10 anos, leu por completo todos os livros que havia em casa. Não recebeu, contudo, qualquer orientação religiosa, pois seus pais consideravam-se agnósticos e não pertenciam a nenhum grupo ou comunidade do gênero.
Aos 15 anos, com a sua família, retornou ao seu país natal, e após a consolidação da revolução bolchevique, ainda adolescente, foi enviado a Moscou para estudar e tornar-se agente marxista na Romênia. Foi integrante do Comintern (organização internacional com o fim de expandir o comunismo pelo mundo, criada por Lenin) e era líder e agente designado e pago diretamente pelo governo de Moscou. Considerava-se, até aquele momento, agnóstico como seus pais.
Casou-se com Sabina Oster, em 1936. Converteram-se a Cristo em 1938, por meio do testemunho de um carpinteiro, o sr. Wolfke, ativo participante da missão anglicana na Romênia. Richard estudou e foi ordenado pastor pelas igrejas Anglicana e Luterana. Em 1944, com a invasão soviética ao seu país e a implantação do regime comunista, Wurmbrand iniciou o ministério de pregação do evangelho junto aos soldados romenos e do exército vermelho. Uma das primeiras diretrizes do novo governo, e sempre ocorre em qualquer regime totalitário, é a necessidade de controlar a igreja através de leis, penalidades e indivíduos capazes de debelar, fiscalizar e restringir seus fundamentos e princípios, tornando-a em mero tentáculo ou apêndice do Estado. Com isso, Wurmbrandt e outros líderes cristãos foram obrigados a criar a “igreja subterrânea”, nos moldes da “igreja primitiva”, reunindo-se clandestinamente a fim de não se submeter à ingerência e intervenção estatal, ou seja, não se subordinar ao culto ideológico e idólatra de governantes e seu poder. A principal ameaça a pairar sobre a igreja não eram as perseguições, apropriações, torturas e mortes de seus membros, mas o tornar-se inócua, reles, como as diretrizes governamentais ansiavam e jamais conseguiram, por meio da criação e instalação de uma “igreja oficial”.
Muito desse período, inclusive os 14 anos em que permaneceu preso pelo governo nas masmorras comunistas, pode ser conhecido em seu livro “Torturado por Amor a Cristo”², no qual relata, em detalhes, os flagelos físicos e psicológicos; o sadismo dos carrascos, incapaz, entretanto, de enfraquecer a fé e o testemunho através dos quais muitos deles, soldados e torturadores, se converteram a Jesus Cristo.
A considerar-se, primeiramente, o fato do pr. Wurmbrand não ter a menor pretensão de escrever uma obra literária sofisticada, mas um testemunho de vida cristã. O livro é simples na linguagem e, de certa forma, em alguns aspectos, rústico, porém, a objetividade tem um significado: o de expressar correta e fielmente o período em que a Romênia esteve dominada pela ideologia marxista, e foi uma “colônia” soviética.
Os relatos de prisões arbitrárias, torturas, mortes, e das práticas mais cruéis de persuasão, a fim de os presos delatarem amigos, parentes e irmãos de fé — e a tentativa de “convertimento” ao comunismo — são dignas dos períodos mais bárbaros que a humanidade já presenciou.
Apenas como reflexão: não é interessante como tantos — e o número só vai crescendo — acusam os EUA de colonialista, enquanto a antiga URSS e os atuais países comunistas são tratados como centros democráticos e que não se interessam pela expansão de suas ditaduras mundo afora?… Chame-se a isso também pelo seu nome real: hipocrisia.
Como alguém já disse: “acuse-os daquilo que você mesmo defende e é!”; assim o mundo vai se transformando, pouco a pouco, em um grande cárcere a céu aberto, onde nem mesmo o pensamento contrário é possível. Se uma única palavra for interpretada de maneira errônea ou equivocada por um” ouvinte” — o famoso X9, delator ou “dedo -duro” —, o peso da mão arbitrária será sentido. Cada vez mais a humanidade vai se “homogeneizando” naquilo de pior e injusto a aflorar a insensibilidade e torpor. E toda unanimidade sendo burra — parodiando Nelson Rodrigues —, as ideologias insistem em tornar o mundo o lugar mais tacanho que existe.
Segundo, os relatos da fé e do preço pago pelos cristãos por não se sujeitarem à ditadura — isso mesmo, cristãos são perseguidos em todos os lugares, exatamente por não se sujeitarem à idolatria Estatal, à “onipresença” da burocracia, como um “deus” a cuidar de todos os aspectos do indivíduo, tornando-o em menos do que um escravo, um objeto descartável e descartado ao bel-prazer do governante ou “sistema” —, pois um dos objetivos das ideologias é a criação de uma “nova sociedade”, de “um mundo perfeito”, e, para isso, a tradição judaico-cristã, a família, a propriedade privada, a moral, e tudo o que fundamentou a civilização ocidental, tem de ser destruído — afinal, o Estado não é laico, mas ateísta, diz não ser religioso, mas tem seus dogmas, culto e ídolos. O Cristianismo é o principal empecilho, já que os cristãos verdadeiros não terão como Senhor ninguém além de Cristo e, para os ideólogos de plantão, tal convicção é simplesmente inaceitável, um verdadeiro absurdo.
Em tempos de cristãos marxistas, cristãos direitistas, cristãos liberais, cristãos conservadores — e um leque ainda maior de “palavras compostas”—, podemos dizer que esses cristãos duplicados são realmente semelhantes e seguidores de Cristo? Ou apenas tentam legitimizar aquilo que, mesmo inconsciente, reputam por ilegítimo e imoral? Defender o indefensável, acreditando que o indefensável deve ser protegido e resguardado pelo discurso e não pelas ações, é sinal de que o cinismo se camuflou de compaixão para correr livremente.
De maneira dissimulada, tem-se alastrado o chamado “evangelho social”, uma porta para a entrada do radicalismo em suas formas mais hipócritas, artificiais e finórias, colocando cristãos contra cristãos, num mundo onde o discurso e não a evangelização ganha cada vez mais “relevância”, essa palavra que surge sempre a sair da boca dos defensores de alguma causa enquanto a vida se torna um mero detalhe.
O número de testemunhos de fé e amor a Cristo, ao Evangelho e ao próximo, relatados pelo pr. Wurmbrand é comovente — e em muitos aspectos deixam-nos envergonhados —, e deveria servir de um “despertar” para a maioria de nós, cristãos, adormecidos e embalados por um discurso de acomodação e leniência em relação ao pecado, ao imoral, e a um Inferno cada vez mais cheio, onde as pessoas não têm a oportunidade de ouvir as verdadeiras “boas novas, contentando-se com uma diluição maligna da sua mensagem, em favor de “um mundo melhor”, onde as vidas, via de regra, estão cada vez piores e mais afastadas de Deus.
Desde já, aconselho a cada cristão, e mesmo o não cristão, a comprar o livro e lê-lo, avaliando-se, a si mesmo, se é aquilo que imagina ser ou se está verdadeiramente sendo (de)formado por discursos, promessas e esperanças falsas, a levar “gato por lebre”, sem poder dizer, ao menos, ter sido engambelado.
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O pr. Richard Wurmbrand criou a missão “Voz dos Mártires”,³ em 1967, a fim de denunciar, auxiliar cristãos perseguidos pelo mundo, orar e levar as “Boas Novas” do evangelho de Cristo aos seus algozes.
Algumas trechos:
1) Richard, conversando com um preso russo, na Romênia ocupada pelos nazistas, durante a II Grande Guerra:
“Era um trabalho dramático e muito comovente. Nunca me esquecerei do meu primeiro encontro com um prisioneiro russo. Ele me havia dito que era engenheiro. Perguntei-lhe se cria em Deus. Se ele houvesse dito “não”, jamais me incomodaria tanto. É direito de cada homem crer ou descrer. Porém quando lhe perguntei se cria em Deus, ele levantou os olhos para mim, sem me entender, e disse: “Não tenho ordem militar para crer. Se eu tiver uma ordem, crerei”.
“Lágrimas correram no meu rosto. Senti meu coração quebrantado. Diante de mim estava um homem com uma mente morta, um homem que havia perdido o maior dom que Deus dera à humanidade – o de ser um indivíduo. Ele havia passado por uma lavagem cerebral e se tornado um instrumento nas mãos dos comunistas, preparado para crer ou não em uma ordem. Não podia mais pensar por si próprio. Era um russo típico depois de todos esses anos de domínio comunista!”
2) Definindo a experiência sobre o poder comunista, em relação à experiência sobre o poder nazista (lembre-se, Wurmbrand é um nome judeu):
“A partir do dia 23 de agosto de 1944, um milhão de soldados russos entraram na Romênia e logo após os comunistas assumiram o poder do nosso pais. Então começou um pesadelo que fazia o sofrimento sob o Nazismo parecer nada.”
3) Na cooptação da igreja:
“Desde que os comunistas assumiram o poder, cuidadosa e astutamente para os seus propósitos, têm seduzido a igreja”.
4) Sobre o Congresso de cristãos, no Parlamento Romeno:
“Ali estavam quatro mil padres, pastores e ministros de todas as denominações. Esses quatro mil padres e pastores escolheram Joseph Stálin como presidente honorário do Congresso. Ao mesmo tempo era presidente do Movimento Mundial dos Ateus e assassinos dos cristãos. Um após outro, bispos e pastores se levantou ao nosso Parlamento e declararam que Comunismo e Cristianismo são fundamentalmente a mesma coisa e podem muito bem coexistir. Um após outro, os ministros ali presentes pronunciaram palavras laudatórias ao Comunismo e asseguraram ao novo governo a lealdade da igreja… Então me levantei e falei ao Congresso, exaltando não aos matadores de cristãos, mas a Cristo e Deus, e afirmei que nossa lealdade é devida em primeiro lugar ao Senhor… Depois tive de pagar por isto, mas valeu a pena!”
5) Sobre as traições:
“Aqueles que se tornaram servos do Comunismo, em lugar de servos de Cristo, começaram a denunciar os irmãos que os não acompanhavam”.
6) Sobre as torturas na prisão:
“Crentes eram pendurados em cordas de cabeça para baixo e açoitados tão severamente que seus corpos balançavam de um lado para o outro sob a força das pancadas. Eram colocados em refrigeradores — “celas refrigerantes” — tão frias que se formava uma camada de gelo na parte interna da cela. Eu próprio fui jogado em uma dessas celas com bem pouca roupa. Médicos da prisão observavam-nos através de uma abertura, até verem sintomas de morte por congelamento. Nesse ponto davam sinal e os guardas nos tiravam e então éramos aquecidos. Quando já estávamos adquirindo calor, éramos imediatamente colocados de novo nas celas congeladoras, e isto repetidamente! Descongelar depois congelar até um ou dois minutos antes da morte, e então descongelar novamente. Isso continuava indefinidamente. Até hoje, algumas vezes não suporto abrir um refrigerador”.
“Na prisão de Tirgu-Ocna, havia um prisioneiro muito jovem chamado Matchevici. Estivera ali desde a idade de dezoito anos. Por causa das torturas, estava agora muito doente com tuberculose. Sua família descobriu de alguma forma o seu estado de saúde, e enviou-lhe cem vidros de estreptomicina, que poderiam lhe fazer a diferença entre a vida e a morte. O oficial político da cadeia chamou o prisioneiro e mostrou a encomenda. Disse-lhe: ‘Aqui está o remédio que pode salvar sua vida. Mas não é permitido receber encomendas da família. Pessoalmente, gostaria de ajudá-lo. Você é jovem. Não gostaria que morresse na prisão. Ajude-me a ajudá-lo! Dê-me informações contra seus companheiros na prisão, e isto me dará justificativa diante dos meus superiores por lhe ter entregado a encomenda’. Matchevici respondeu sem hesitar: ‘Não desejo permanecer vivo e ter vergonha de olhar no espelho, pois estaria vendo um traidor. Não posso aceitar tal condição. Prefiro morrer’. O oficial lhe estendeu a mão e disse: ‘Minhas congratulações. Não esperava que me desse qualquer outra resposta. Mas eu gostaria de fazer outra proposta. Alguns dos prisioneiros se tornaram informantes. Afirmam que são comunistas, e estão denunciando a você. Jogam dos dois lados. Não confiamos neles. Gostaríamos de saber até que ponto são sinceros. Para você foram traidores. Prejudicaram muito sua vida, informando-nos sobre suas palavras e ações. Compreendo que não queira trair seus companheiros. Mas dê-nos informações sobre estes que se lhe opõem, e assim salvará sua vida!‘. Matchevici respondeu com a mesma rapidez que tivera na primeira proposta. ‘Sou um discípulo de Jesus, e ele nos ensinou a amar até nossos inimigos. Estes homens que nos traem realmente nos prejudicam muito, mas não posso pagar o mal com mal. Não posso dar informação nem contra eles. Tenho pena deles, oro por eles, mas não desejo ter qualquer ligação com os comunistas’. Matchevici voltou desta conversa com o oficial e morreu na mesma cela onde eu estava. Estive ao seu lado quando morreu, e morreu louvando a Deus. O amor venceu até mesmo a sede natural pela vida.”
7) Sobre a fé em Jesus Cristo:
Uma grande lição permaneceu após todas as surras, torturas e carnificina infligidas pelos comunistas aos cristãos: o espírito é capaz de dominar o corpo. Muitas vezes, ao sermos torturados, sentíamos a dor, mas era como se fosse algo distante e bem dissociado do nosso espírito que estava tomado com a glória de Cristo e a sua presença conosco. Quando recebíamos uma fatia de pão por semana, e uma tigela de sopa de água suja por dia, decidimos que continuaríamos dando fielmente o “dízimo” mesmo nestas circunstâncias. De dez em dez semanas pegávamos a fatia de pão e a entregávamos a alguém que estava mais fraco como nossa oferta ao Mestre”.
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Notas: 1- Esta seção não visa revelar necessariamente “mártires” devidamente mortos por seus carrascos e verdugos, mas também aos que sofreram, por anos a fio, ameaças de morte, torturas e chegaram a “morrer” inúmeras vezes sem contudo entregarem seus espíritos. É mais uma homenagem e lembrança àqueles inocentes e devotados servos de Deus, que por motivos ideológicos tiveram parte ou o todo da sua vida ceifada pela crueldade e vilania de governos e seus comandantes.
2- O livro pode ser adquirido no site “Voz dos Mártires”, em inglês ou espanhol, já que a versão em português está esgotada há muito, e talvez possa ser encontrada somente em sebos, infelizmente.
3- Voz dos Mártires: https://www.vozdosmartires.pt/
Jorge F. Isah