Eu falaria de outra coisa, mas…

Vivemos umas dezoito horas por dia ocupados com coisas necessárias à nossa sobrevivência e outras tantas inúteis, exóticas ou simplesmente estúpidas. Em muitos casos, lucraríamos mais se seguíssemos o exemplo dos animais: comer, defecar e, depois, dormir.

Aliás, falando em dormir, muitos de nós não conseguimos mais do que cinco ou seis horas de sono por noite. Parte do tempo é consumida naquele antigo exercício de reprodução que, considerando a quantidade de homens vasectomizados e mulheres com as trompas ligadas, já não cumpre necessariamente sua finalidade original. Não seria mais lógico admitir que, em certas circunstâncias, estamos apenas nos dedicando a uma atividade improdutiva? Prazerosa, vá lá, mas improdutiva.

Alguém talvez considere essa introdução desnecessária, por ser realista demais. Aviso, preventivamente, que já estou medicado e, se quiserem, posso informar meus CID’s. Tenho-os à disposição.

Mas voltemos ao assunto.

Muitas vezes, a realidade poderia ser abordada diretamente. Por que, então, insistimos em rodeá-la, disfarçá-la ou abordá-la pelos fundos?

Um grupo de senhoras da terceira idade — algumas já promovidas à quarta, com todos os direitos adquiridos — organiza peças, danças e outras manifestações artísticas para ocupar o tempo e transmitir mensagens importantes às participantes. Dispõem de um espaço bastante apropriado: palco, iluminação, equipamentos, ar-condicionado e um auditório de tamanho médio.

Sem janelas.

Guardem essa informação. Ela será fundamental para compreender a tragédia. Ou a comédia. Ainda não decidi.

Numa dessas apresentações, uma senhora surge no palco para interpretar um esquete, um monólogo. Pela desenvoltura, provavelmente recebera excelente educação ou fora atriz na juventude. Talvez as duas coisas. Desde já, adianto: o texto era excelente, e sua mensagem, pertinente a qualquer idade.

Se fosse conveniente, eu o reproduziria integralmente aqui. Mas não é, e vocês terão de se contentar com meu resumo. Prometo tentar não estragar tudo.

A senhora entra pela esquerda, caminhando em direção ao centro do palco. Cumprimenta a plateia e, depois de pendular graciosamente o corpo de um lado para o outro, com aquela feminilidade que nem os anos conseguem aposentar, deposita no chão uma mala de tamanho médio.

Após algumas falas relacionadas à ação, abre-a subitamente.

Daí em diante, começa a retirar os objetos, um por um. Cada peça representa uma lembrança, um acontecimento marcante, alguma coisa de seu passado distante. Enquanto fala, distribui os pertences pelo chão, à sua volta.

A apresentação prossegue muito bem, até que, no clímax, ela abre completamente a mala, sacode-a com vigor e deixa cair os últimos objetos, proclamando:

— Tudo é meu! São minhas todas essas coisas!

Belíssimo.

O que vocês não puderam acompanhar nesta descrição apressada foi o significado particular de cada objeto. Havia ali toda uma vida representada por pequenas coisas. E, ao que parece, os pertences utilizados em cena eram realmente da atriz, guardados durante décadas.

Décadas.

Outra informação que convém guardar.

Ao sacudir a mala com a abertura voltada para o chão, além dos últimos objetos, a senhora espalhou pelo palco uma centena de bolinhas. Sim, aquelas utilizadas durante décadas para combater traças e outros visitantes indesejados dos guarda-roupas.

Naftalina.

Centenas de bolinhas de naftalina.

Algumas já reduzidas pela sublimação natural; outras, ainda robustas, em plena forma, prontas para prestar novos serviços à indústria química.

Convém lembrar — e peço que tentem visualizar a cena — que todas aquelas tralhas, utilizadas como elementos cênicos de um texto excelente, provavelmente haviam passado décadas em algum armário, baú ou porão. A cada objeto retirado, partículas acumuladas durante anos ganhavam a liberdade: poeira, ácaros, esporos de fungos e sabe-se lá mais o quê. Talvez até alguma forma de vida ainda não catalogada pela ciência.

Tudo isso num auditório fechado.

Sem janelas.

Com ar-condicionado.

A jovem que havia executado maravilhosamente uma peça ao violino e permanecera no palco, imóvel como um abajur de canto de sala, já apresentava os primeiros sinais de participação involuntária no espetáculo.

Seus olhos estavam cheios d’água. Não por causa da emoção do texto.

As graciosas narinas pingavam como uma garrafa de Coca-Cola recém-retirada da geladeira. A pele, antes rosada, adquirira uma tonalidade mais sóbria, diríamos fúnebre, próxima à de Mortícia Addams, embora sem a elegância do figurino.

A plateia, por sua vez, já vinha percebendo os efeitos daquela realidade estranha durante o monólogo. Algumas tossiam discretamente. Outras movimentavam o nariz, desconfiadas, como cães farejadores diante de uma mala suspeita.

Mas o ápice, o cúmulo, o último estágio da agressão química foi a chuva de naftalina.

A primeira a debandar foi uma senhorinha simpática, baixinha, quase uma anãzinha, de constituição generosa. Apesar do andar habitualmente desengonçado e cambaleante, ganhou uma agilidade desconhecida até por ela mesma. Levantou-se e desapareceu numa velocidade que faria inveja a muito atleta de fim de semana.

Foi a primeira a alcançar a saída.

As demais entreolhavam-se em silêncio, procurando confirmar, umas nos rostos das outras, aquilo que ninguém parecia disposto a anunciar em voz alta:

— Você também está sentindo esse cheiro?

Algumas começaram a trocar mensagens pelo celular. Não sei se pediam socorro, esclarecimentos ou instruções sobre como proceder diante de um possível ataque de naftalina em recinto fechado.

Talvez procurassem o telefone da Defesa Civil.

Segundo me relataram, havia entre quarenta e cinquenta mulheres no auditório. O espanto e a apreensão eram generalizados. A mensagem artística, tão cuidadosamente elaborada, já havia sido completamente esquecida.

Ninguém mais pensava no significado dos objetos, na passagem do tempo, nas lembranças ou na importância de preservar a própria história.

A prioridade era preservar os pulmões.

E repito: tratava-se de um pequeno teatro, destinado a apresentações musicais, filmes e peças, com bons equipamentos, iluminação adequada, ar-condicionado e nenhuma janela.

Nenhuma.

Ah! Esqueci de mencionar um detalhe importantíssimo.

O monólogo começava com uma frase que a personagem repetia enquanto caminhava em direção ao centro do palco:

— Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer!

— Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer!

— Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer!

— Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer!

Na semana que vem saberemos se todas as participantes estarão presentes à próxima reunião.

Eu lhes direi.

Desde que haja alguém para contar.

Helvécio Pereira & Rosemare Gomes

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