Com a idade, alguns de nós tomam maior consciência das coisas, algo esperado como natural, resultado do tempo de vida e de todas as experiências, boas e más, positivas e negativas. As pataquadas operadas por muitos contradizem totalmente esta introdução.
Aqui está a prova: uma turba de jovens se esquece de amarrar uma simples corda no corpo de outra jovem, e ela mesma não se deu ao trabalho de pensar na própria segurança; provavelmente mais preocupada em aparecer nas redes sociais e à caça de views, se jogou de corpo e alma no abismo.
Pergunto: qual é a graça?
Mas os indícios não param.
Uma estudante de medicina, magrinha, mimosinha, brigou com os vizinhos, surtou, foi levada para casa, pegou o carro — um Jeep —, voltou e arrebentou o portão do vizinho. Não sem antes pedir que o dono — de sessenta e sete anos — e seus filhos se ajoelhassem e pedissem perdão. O motivo: eles aparentemente haviam rido de sua barbeiragem ao tentar colocar o carro na garagem, culminando com a lateral amassada. Resultado: os rapazes se ajoelharam, mas o velho, por conta de um acidente no passado, não conseguiu. Ela atirou o Jeep no portão e o matou — e mais amassados decoraram o veículo. Para piorar, uma dezena de testemunhas que poderiam intervir antes de a tragédia culminar sacaram os seus smartphones e filmaram o homicídio, com direito a arranjos nos cabelos, voz empostada e muita cara de pau.
Não para por aí, não, caro leitor. Um jovem de vinte e um anos achou certa sigla bonita e, sem ter nenhum envolvimento com facções, resolveu desenhar “CV” onde não devia. Fuzilado sumariamente! Sem tempo para explicar a própria ignorância.
Parece uma análise simplória, mas se olharmos alguns aspectos como juventude, imaturidade e algumas deficiências (cognitivas, psicológicas, educacionais, p. ex.), parece a fórmula certa para o desastre — ou desastres.
Mas alguém vai facilmente tirar dessas estatísticas algo que possa servir-lhe de proveito, ainda mais agora com as campanhas eleitorais próximas de tornarem cada vez mais sofrida a vida do cidadão.
E sei que pedir um pouco de juízo, sabedoria ou prudência para as pessoas entorpecidas pelos seus quinze segundos de fama, pela pressa de correr sem saber para onde, ou por achar que a patetice é uma dádiva, é chover no molhado. Nem tudo se resolve com o tempo, mas às vezes é o que se pode esperar: que ele possa acrescentar algo de novo à velha mania de se esvaziar do que não importa e se encher daquilo que o afastará da comparação com uma ameba… e que me desculpem as amebas.
Quanto a mim, posso dizer que tenho melhorado — há quem insista em dizer que estou errado — e esse estágio último chamado de “terceira idade”, “melhor idade” (expressões cheias de eufemismo para designar velhice e caquetidão — vai me dizer que ter uma farmácia em casa, ficar surdo, cego e usar fraldas geriátricas é bom?) tem me levado a ver a vida com outros olhos, olhos de míope e astigmático.
Talvez por não ter uma Harley-Davidson ou um iate na Pampulha, tenho prestado mais atenção às pessoas, às coisas, discernindo entre umas e outras — e vá lá, engraçadinho, não tem nada a ver com apreciar cachaças —, tirando lições e aprendendo a não repetir os mesmos erros, evitando sobretudo o absolutamente desnecessário.
Não, não fui um adolescente exemplar, reconheço. Era meio irresponsável, às vezes kamikaze, em outras tolo. Fui criado como filho único — e não é desculpa, ainda que eu já esteja me desculpando —, praticamente sem irmãos e primos; ou seja, era eu e o mundo. Talvez tenha demorado mais que o necessário, ou mais que o normal, mas sobrevivi. E pretendo continuar sobrevivendo.
O estranho disso tudo é que, embora incidentes como esses se tornem públicos e milhões de pessoas tenham acesso a eles, a sociedade não tira uma lição; novas vítimas surgirão e serão lamentadas, para depois serem esquecidas.
Mas não perco as esperanças de que um ou outro poderá desfrutar de algo muito melhor e mais duradouro, algo que talvez a adrenalina possa interromper, e ver a vida passar como uma brisa: a dança de uma borboleta em seu voo maravilhosamente comum. O balé dos pássaros no céu. O nascer ou o pôr do sol. Uma lua ainda com o dia claro. Formigas a fazer o seu trabalho. O perfume de uma árvore frutífera. As cores das frutas sobre a mesa.
Enfim, tantas coisas para ver, sentir, atentar, e muitos jovens — alguns nem tanto — silenciam um talento natural e se entregam ao modo mais efetivo de, literalmente, jogar suas vidas fora.
Helvécio S. Pereira