Viajamos, eu, o motorista e um grupo de residentes em medicina, rumo a um congresso que aconteceria em Tiradentes. Pessoal educado, granfino, todos de branco.
Chegamos a Tiradentes ao cair da tarde e fomos direto para o hotel. Cidade pequena, histórica, cheia de belezas produzidas em séculos passados.
Fizemos um reconhecimento do hotel onde íamos ficar, lugar chique. Eu e Cardoso íamos nos hospedar junto com os “doutorzinhos”, coisa rara, quase sempre dormíamos em pensões mais modestas.
Cardoso era um homem matuto. Dirigia muito bem. Contava casos, às vezes os mesmos. Cansava de ouvi-los. Era uma maneira de espantar o sono que causa acidentes. Tinha um sorriso amarelo, bochecha gorda e seus olhos fechavam quando sorria.
Eram por volta de 6:30 da noite, Cardoso estava pálido de fome. Os olhos arregalados procuravam pela cozinha do hotel, restaurante ou qualquer coisa que lembrasse comida.
Sentamos em uma mesa, éramos os primeiros, Cardoso pediu uma cachaça para abrir o apetite que, a esta hora, já estava escancarado.
O garçom trouxe uma panela de inox com uma sopa rala e verde, olhamos desanimados.
— Vamos comer, a noite é longa — comentou.
Tomamos aquela sopa. Cardoso suava de escorrer pela testa. Repetiu umas cinco vezes, não consegui acompanhá-lo na sua voracidade, mas fiz-lhe companhia. Chegaram os doutorzinhos para jantar, colocaram uma colher de sopa no prato.
Gente rica não come direito — comentou Cardoso, limpando a testa.
Foi quando o garçom colocou na mesa central do restaurante todo tipo de comida que um cidadão poderia desejar: pato assado, frango, peixe, macarronada, maionese, etc.
Ficamos olhando aquilo tudo acontecer e todo mundo olhando pra gente, especialmente para o Cardoso, que havia tomado cinco pratos de entrada de sopa.
Realmente não sabíamos que aquela sopa era para abrir o apetite. Chamavam-na de “entrada”. Não sabíamos; Cardoso abria o apetite com cachaça mesmo. Eu nunca precisei de nada para abrir o apetite, já nasceu aberto.
No outro dia, no almoço, estávamos novamente no restaurante.
— O senhor vai aceitar entrada? — perguntou o garçom, gentilmente.
— Não carece, não. Vou esperar a comida mesmo — respondeu sem hesitar.
Cardoso mostrava seu sorriso amarelo para os “doutorzinhos” que iam tomando assento à mesa.
— E aí, motorista! Vai na sopa não? — abaixei a cabeça de vergonha.
— Não, sopa é só de noite — respondeu em gargalhadas, meu amigo motorista.
Geraldo Hera