Quando eu era criança, a gente gostava de cheirar gasolina. Sim, gasolina, pura, sem essas misturas loucas que fazem hoje em dia. A gente comia Dizioli. Chupava balas Soft. Andava descalço pelas ruas e quando entrava um caco de vidro no casco, tirava com a mão. Quem nunca arrancou a tampa do dedão chutando bola na rua? O sangue jorrava, a gente enrolava com um pano, depois passava tintura de iodo escondido, para a mãe não ver. Descia a ladeira com carrinho de rolimã sem freio. Soltava pipa com cerol. Ninguém morreu. Hoje estão todos velhos e gordos. Vi na internet algumas fotos que tiraram recentemente, pois não fui ao encontro que fizeram, porque mudei de cidade.
As crianças e adolescentes de hoje não podem constipar. Estão sujeitos à fadiga, se estudarem muito. Brincadeiras e encontros, só virtuais. As ruas estão cheias de perigos. E nós somos os culpados por isso. Criamos nossos filhos em uma redoma. E eles foram além, cercando os filhos deles com cuidados ainda mais excessivos, os netos de uma geração afrescalhada.
Como é que eles enfrentarão uma guerra? Como irão se defender de um iminente ataque? Para eles, não existe o perigo: é só paz, amor e diversidade. Eles acreditam em utopias que cultivávamos há 50 anos, e que foi provado que eram sofismas, elaborados por gente que queria vender discos, filmes e livros.
Bob Dylan, Joan Baez, Aldous Huxley, Beatles, Stones, Salinger, Kerouac, mexeram a cabeça da juventude dos anos 60. Hoje em dia, os jovens escutam funk. E rebolam até o chão.
Michel Salomão