Como tradutora poliglota, quando me perguntam quais idiomas eu falo, frequentemente ouço o comentário: “Uau! Eu mal falo português direito.” São brasileiros que se comunicam em português todos os dias… assim como eu. É como se, por ter aprendido um idioma informalmente, esse domínio da língua fosse de alguma forma inferior a quem se dedicou a estudar a fundo vários idiomas. Entendo a intenção do elogio e recebo-o com carinho. Porém, me pego pensando: quantas vezes não faço a mesma coisa?
Admiro quem tira músicas de ouvido, faz contas de cabeça, se destaca em algum esporte. E de repente, minha habilidade linguística perde o brilho, pois percebo outras inteligências muito mais afloradas em outras pessoas. É fácil cair na armadilha de considerar mais inteligente aquela pessoa que tem habilidades que nós não temos.
A consequência quase inevitável de comparar-se com outros é ranquear habilidades. Como seres sociais, tendemos a nos definir em relação aos demais.
Entretanto, quando deixamos de pensar em termos de comparação, percebemos quão rica é cada uma das habilidades do ser humano – artísticas, esportivas, criativas, manuais… Existe uma complexidade física e mental que diferencia cada atividade. Não viemos ao mundo todos “programados” da mesma forma, e há beleza nisso. Às vezes, é preciso voltar o olhar para a infância para se lembrar desse fato essencial. Basta observar o desenvolvimento de uma criança: cada passo importa, cada nova habilidade desperta fascinação. A criança, por sua vez, parece não se inibir por aquilo que não consegue.
Qual a lição quando se trata de talentos? Um dia todos fomos crianças com uma habilidade inata: a de acreditar que tudo é possível. Sem fazer juízo de valor, apenas com uma enorme curiosidade de aprender. Nisso mora uma verdade fundamental: antes de ser objeto de comparação, um talento sempre foi paixão.

