Mudei. Não porque quis ou por necessidade, mas porque fui despejado. Não é a melhor das experiências. Mesmo pagando o aluguel rigorosamente em dia, fazer benfeitorias no imóvel que não foram ressarcidas, e ouvir dos vizinhos que nunca tiveram um inquilino tão querido e confiável, dona Fátima não arredou o pé dos meus fundilhos. Ela disse, em uma mensagem de WhatsApp:
“Locatário é igual cão vadio. Se encontra comida e água na porta, não sai mais!”
Não entendi o que o vira-latas tinha a ver comigo. Achei por bem não replicar ou pedir explicações. Deixei como estava.
Findo o aviso-prévio, a administradora veio para a vistoria do imóvel e o encontrou pintado, com vários reparos, lustres novos, portão novo, ducha idem, e a entrada da garagem totalmente restaurada. Pensei no vira-latas, e imaginei se seria capaz de fazer tudo aquilo, em três anos, apenas por uma tijelinha de ração e água.
— Bem feito! — disse a esposa — Eu lhe disse para não fazer nada, pois o imóvel não era nosso, e aí está! Na hora de renovar o contrato, aquelazinha nos pôs na rua.
— Mas, benzinho, não tinha como a gente morar sem as mínimas condições… Você sabe que eram coisas que precisavam ser feitas… Já imaginou as suas visitas, os parentes, chegando aqui e vendo a casa em petição de miséria?
— Que se danem! Aqui não é resort. Se não estiver bom, posso indicar vários hotéis e pousadas.
Tentei uma última cartada.
— Fazendo tudo direitinho, o seu irmão ainda teve a pachorra de dizer que a casa era pequena…
Ela me encarou. Pensou um pouco… Isso não era bom sinal.
— E alguém liga pro’que o Luizinho diz? Ninguém leva ele a sério!
— Levam, sim. Na hora de rir da gente, enquanto ele conta as besteiras de sempre.
— E você se importa?
Na verdade, não me importava. Era o mesmo que ouvir um bêbado de madrugada.
A tal da dona Fátima, além de expulsar a gente ainda me deixou em maus lençóis. Os vizinhos viviam dizendo que ela era isso e aquilo. Eu não a conhecia, a não ser pelas raras mensagens, mas elas não deixavam uma impressão favorável.
No dia da mudança, um oficial de justiça apareceu com os seus papeis, mil desculpas e se dizendo “obrigado” a fazer o que não queria: nos intimidar, ou melhor, intimar.
Peguei o papel e li. Era inacreditável! Segundo o despacho, não podíamos retirar nenhum dos pertences da casa até que um perito avaliasse o que era nosso. Tínhamos o prazo de 10 dias para recorrer… Dez dias!
— Tudo é meu.
— Tem nota fiscal disto, disso, daquilo? — perguntou com aquele ar cínico.
— Tenho, claro! Ainda acredito em fadas e duendes.
— Do que está me acusando?
— De você, nada… Quanto aos demais…
— Isso é desacato! E injúria… e ofensa… e…
A mulher olhava de dentro do carro, impaciente. Como se eu devesse resolver logo a questão.
— Olha, se deixar a mudança prosseguir, pode me prender.
— Por que eu faria isso?
— Porque se não fizer, vou lhe dar uma surra tão grande que as plásticas e cirurgias não vão valer o esforço.
Cerrei o punho, fiz cara de político em plenário, enquanto ele avaliava a minha proposta. Por fim, disse para o motorista e minha esposa.
— Pode ir… pode ir… — balançou a mão agitada.
— Agora, estou lhe dando voz de prisão por desacato e ofensa.
— Obrigado… Você é um cara legal…
E pude ver o nosso carro, seguido do caminhão, descer a rua.
Jorge F. Isah