Aula de ciências. “Faça uma redação sobre uma doença que você já teve”. Naquela hora começou o meu suplício. Uma palavra. Apenas uma palavra. Uma bendita palavra me impedia de começar minha redação. Enxaqueca. “Enchaque”… nunca senti tanta falta de um dicionário. Se eu errasse logo no começo, a professora nem tomaria o cuidado de ler o resto. Qual seria o sinônimo? Não, dor de cabeça é sintoma. Não tinha jeito, minhas mãos suavam, minha cabeça doía.
A professora, de óculos na ponta do nariz, sentada, esperando a bobagem que eu iria escrever. Comecei.
“… eu estava com enx… “por que minha mãe me disse isso? Por que não disse que eu estava com outra doença? Sarampo, catapora, coisas de criança. Eu saberia escrever. Rasguei a folha, amassei tudo, levantei-me, fui até a lixeira, um pretexto para aliviar a tensão. Não resolveu. Pensei então …
Poderia mentir, quem saberia? Mas é feio e minha mãe me disse que toda mentira acaba se revelando um dia. Iria valer a pena arriscar? Menti.
Escrevi quase duas páginas da minha pseudoenfermidade, catapora. Sabia do assunto, pois meu irmão já havia ficado mais de uma semana em casa, dava dó de ver o bichinho todo avermelhado, cheio de bolinhas, sem poder se coçar
A redação foi corrigida, tirei um B+, penso que a professora ficou com pena de tanto sofrimento que escrevi e que nunca havia sofrido.
Duas semanas se passaram até que a catapora me pegou de verdade. Era o castigo de Deus por eu ter mentido. Minha mãe mandou justificativa para a Escola da minha ausência. A professora não perdeu oportunidade de escrever à minha mãe. “Dona Tereza, um caso raro na ciência ocorreu com seu filho: há duas semanas ele fez um relato, em redação, sobre a catapora que o afligiu no mês passado, e agora, aconteceu novamente, nunca havia visto tal doença ocorrer duas vezes num mesmo menino…”
Morri de vergonha, mas sobrevivi. Nunca mais olhei nos olhos da minha professora e torci para que o ano acabasse depressa, para que a 4ª série chegasse ao fim e pudesse deixar tudo aquilo para trás.
Geraldo Hera