A sala era simples, pintada de azul, e no alto da parede havia uma moldura com o retrato de um homem e uma mulher. Retrato em branco e preto, encardido, muito velho.
Era a casa dos meus tios. O retrato lá, olhando para mim e eu olhando para ele. Ficava pensando naquelas pessoas, quem foram? O que faziam? Estavam lá, inertes, há uns quarenta anos. De repente bateram em meu ombro:
— Esses eram seus bisavôs – cochichou minha tia.
Imaginei a vida deles. Ternos em casimira, chapéu, vestidos longos e passeios na pequena praça pública. Em 1922, as cadeias guardavam apenas alguns arruaceiros, um crime lá, outro cá, mas não havia o profissionalismo de hoje.
Em 1922, também houve a “Semana da Arte”, um escândalo para a sociedade, mas nada comparado aos escândalos que vemos hoje. Ali, postados para a máquina de tirar retratos, meus bisavós não pensavam em televisão, nem em telefones de bolso e uma sala de bate papo, se fazia com muitas pessoas, não com um computador.
Apesar de todas as limitações tecnológicas, eles eram felizes. Ficaram juntos na fotografia e se eternizaram nela. Fizeram filhos e mais filhos, como todos os outros bisavós. Filhos que foram inventando o progresso, que foram inventando as favelas. Mas também criaram poetas dentro das favelas, poesias dentro das favelas e leitores, é claro, dentro das favelas. Ah! Quanta coisa…
E o retrato continua lá, sem saber o que acontece, olhando pra todo mundo que passa, eterno, dependurado e sorrindo feliz.
Geraldo Hera