Penso que as facilidades da vida não forjam pessoas fortes. Pode ser apenas uma tese pessoal e pode não estar correta para as outras as pessoas. Quando eu dava aulas, quase trinta anos atrás, durante muito tempo repetia a abordagem: eu perguntava aos alunos se eles sabiam muitas coisas da sua história, da história das suas famílias. Quase sempre, uns gatos pingados, diziam alguma coisa. A maioria não sabia nada sobre como eram as suas famílias, como haviam surgido, vivido, etc.
Lembro que ficavam surpresos quando, dizendo certas verdades, falava que ninguém veio para o Brasil a passeio. Italianos, além dos turcos, libaneses, vieram para cá porque os locais onde viviam havia se tornado, por vários motivos, verdadeiros infernos. Até mesmos os portugueses. Os próprios índios vierem de longe, do norte das Américas, e há quem afirme que boa parte eram chineses, vindos da China, claro. Não tinha sossego em suas próprias terra por serem perseguidos por tribos inimigas.
Todos temos uma história de privações que muitas vezes pela melhora de vida nos envergonhamos até de lembrar. Vi uma vez o Sílvio Santos dizer que morou em um cortiço, onde um único banheiro, na verdade uma privada, era lá fora. Eu não encontro pobres dizendo que faziam as suas necessidades em fossas e que o medo de crianças era cair naquele buraco com fedor e mistério. Passei por tudo isso e muito mais, como já prometi contar aos poucos por aqui.
Minha chegada neste mundo foi muito complicada, fora da curva, e não sou a única. Muita gente tem vergonha de admitir a sua realidade. Digo que sobrevivi, e cheguei até aqui por Deus mesmo; me desculpe se alguns presunçosos tiram Deus da equação.
Aos cinco anos não andava e não falava. Fui para a escola aos dez e parecia que tinha sete ou até seis. Tive quase todas as doenças infantis, tirando meningite e paralisia infantil, graças a Deus, senão estaria morta ou aleijada. Minha pele era ressecada e rachava, seja no frio ou no calor. Tinha perebas por toda a perna. As galinhas, minhas amigas, tiravam as casquinhas quando elas saravam sozinhas. Tive hemorroidas por causa de dieta pobre, e mamãe me curou usando um procedimento indígena, que em outra hora conto.
Aos quinze anos, após uma briga com o meio-irmão mais velho do que eu; aliás, todos eram mais velhos do que eu… Fiquei sabendo que a minha mãe não era a minha mãe. Engraçado que uma vez ouvi, quando meu pai me levou ao mercado central para encontrar os amigos e jogar conversa fora, um deles perguntou ao olhar para mim, e ver o meu cabelo loiro… Sim, eu era moreninha ou, tecnicamente, negra, mas com o cabelo amarelo:
“Esta é a filha da Odete?”
(Homens sempre mais cumplices uns dos outros do que mulheres!)
Meu pai, orgulhoso, respondeu:
“É!”
Quando meu irmão gritou na sala, a respeito da minha madrasta: “Ela não é sua mãe”, o meu mundo caiu, e esse acontecimento me veio a memória. Difícil descrever o turbilhão de coisas vindo à cabeça em um único segundo. Por ser atrasada, essa palavra é até suave, no meu desenvolvimento, a fase das perguntas infantis estava deslocada em minha vida de pré-adolescente. E a minha madrasta, até então se passando mãe, tinha que aturar as minhas perguntas sinceras mas talvez muito inocentes ou ingênuas, ou mesmo bobas, para a minha idade.
“Mãe de onde a gente veio?”
“Veio como?”
“Como todo mundo que viveu antes da gente viveu? O que fizeram? Era todo mundo bom?”
“Não tem como saber, Paixão!”
“Não tem? Como?”
“Porque não tem, Paixão!… só Deus sabe, Paixão.”
“Como Ele sabe mamãe?”
“Não sei, Paixão! Só sei que sabe.”
“Sabe tudo?”
“Sabe.”
“Aaah…”
“Ele nos vê no escuro? Nos vê pelada?”
“Ah, Paixão! Tem paciência! Vá lá na fábrica de móveis buscar ‘serralha’ para o fogão… tem almoço para fazer.”
Aposto que alguns de vocês entenderam a coisa do fogão.
Confortos e facilidades gratuitas nos fazem fracos. As dificuldades nos fazem fortes.
A mim me fizeram.
E a você?
Rosamare Gomes