O Bilhete

— Crônicas escolares 3 —

Todas, absolutamente todas as cartas de amor são ridículas, diz o poeta. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Se há amor, tem de haver o ridículo. É um axioma. Ponto. Mas, poxa, ninguém merece pagar o mico que eu paguei na 2ª Série.

Quando os professores estão distraídos os alunos costumam fazer coisas inomináveis. Escrever bilhetinhos de amor é uma delas. Não me pergunte o conteúdo exato do bilhete, que eu não lembro. Devia conter algo piegas como “Te amo. Quer namorar comigo?”, ou algo assim. Mas uma coisa eu sei: o bilhete tinha um endereço bem específico, e este atendia pela graça de Carmencita, da sala ao lado. Ela era realmente uma graça. Meu coração palpitava por Carmencita. Ah, Carmencita!

Éramos bem mais do que seis na minha sala, então precisei me esgueirar por entre as carteiras até chegar à porta enquanto a professora escrevia no quadro-negro (que, como todo mundo sabe, é verde, mas, olhando de longe, é negro mesmo, então parem de bobagem). Saí como um raio e encontrei a porta do meu destino, do meu fatídico destino, aberta. Antes de interromper a aula alheia com minha estabanada, estudei, juro que estudei, a rota, calculei o tempo de entrega da encomenda e possíveis saídas de emergência, caso algo desse errado. Confiante, mas ao mesmo tempo com medo de que o diretor passasse ali e perguntasse que diabos eu estava fazendo fora da sala de aula, invadi a sala e joguei o bilhete na carteira da minha indiazinha. O problema é que não estudei a rota de volta (a rigor deveria ser igual à da ida, mas não era), então aconteceu aquilo que até hoje considero o maior mico que já paguei na vida: tropecei nas cadeiras e caí estatelado como uma jaca no chão.

A dor maior não foi nem tanto pelos joelhos esfolados, ou a costela amassada, ou a canela com um calombo do tamanho de uma pitomba. A dor maior, meus amigos, foi ver Carmencita, minha adorável Carmencita, se juntando ao coro de gargalhadas que se abriu naquele instante. “Mateus ridiculão, olha só que papelão!” — a musiquinha até hoje ressoa nos meus ouvidos. Voltei para a minha sala totalmente atônito, abalado, decepcionado comigo mesmo e com a índia dos meus sonhos de criança, a qual eu nunca soube se leu o bilhete (o que é uma outra dor).

Meu pai até hoje se ri dessa história. Ele lembra de como ficou preocupado quando começou a perceber que eu já estava sofrendo por amor, meu primeiro amor. Eu tinha oito anos à época, a idade em que o cotovelo do homem começa a doer, segundo ele. Acho que tem razão. Aliás, eita negocinho ridículo de feio é o tal cotovelo da gente, viu. Quer xingar alguém? Chame-o de “cara de cotovelo”.

Leonardo Bruno Galdino

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados