Primeiro, acredite no governo. Vote, defenda, brigue e se sujeite às maiores loucuras a fim de proteger o seu político de carteirinha. Nunca se esqueça do que ele diz: “eu cuido de você!”. Escreva em um bloquinho — caso saiba escrever — a frase da sua vida, dita pelo seu chefe: “sem mim, nada podeis fazer”. E então, se possível e a grana deixar, cole na parede do quarto um grande pôster do seu político sorrindo, acenando e demonstrando, “espontaneamente”, o quanto é confiável e quer o seu bem. Ah, ia me esquecendo: jamais conteste ou duvide das atitudes dele e, se confrontado, repita em alto e bom som: “Não permito que fale assim do meu papai ou mamãe”. Afinal, isso, a ingratidão, é coisa de filho bastardo, não é?
Segundo, acredite na mídia. Leia, ouça, não se canse de ler e ouvi-la, seja TV, rádio, YouTube, X, ou a plataforma da sua preferência. Eles são imparciais e, como os políticos, existem por você, para deixá-lo a par dos últimos benefícios do governo e fazê-lo entender que o mal é bem, e o bem mal; de que pé de galinha e salsicha são os melhores alimentos do mundo… e, pensando em seu bem-estar, abriram mão de comê-los em troca dos inapropriados e nocivos filés, lagostas e caviares. Se possível, assista a todas as edições dos telejornais e ria na cara de quem, por algum motivo, duvide da lisura e independência da emissora. Afinal, por que acreditar nos próprios olhos se existem outros mais confiáveis — mesmo escondidos entre saias e calças — onde depositar a esperança, não é?
Terceiro, acredite que não é gado e não faz parte de um rebanho. No fundo, isso é coisa de bolsominion ou lulalarápio. E se você está de um lado, o gado está do outro, e vice-versa. Chame o outro de gado enquanto muge. Chame-o de idiota enquanto é utilitário. E jamais se esqueça de que a verdade está do seu lado, a despeito de não crer em verdade absoluta. Se possível, defeque enquanto caminha atrás do líder, cuspa, vomite, e, por onde passar, deixe a sua marca: pinche paredes, faça desenhos obscenos, xingue a mãe dos outros como se não tivesse uma, ameace matar sicranos e fulanos, erga o punho alto o suficiente, berre além do suficiente, conclame outros a fazer o mesmo, e depois de muito esforço e cansaço, deite-se para ruminar.
Você é um perfeito, ou quase perfeito…
Jorge F. Isah