A montanha (in)acessível

Demandou-me cerca de um ano a leitura do calhamaço de Thomas Mann, pois desde o início percebi não ser uma obra para se perscrutar rapidamente, dada a profundidade dos assuntos e personagens, impedindo assim conclusões levianas e precipitadas. Nenhum leitor pode se aproximar de “A Montanha Mágica” se não estiver imbuído do espírito de tenaz analista e decodificador. Não é, portanto, um livro de passatempo (mesmo sendo), ou de amenidades (ainda que se encontre), ou de perífrases a suavizar a realidade (talvez, uma ou outra aqui e acolá). Mann conta histórias dentro da história, e até mesmo a História, íntima e intensamente detalhada, tal qual um observador dedicado, nada relapso ou leviano.

São muitos os exemplos, mas gostaria de deter-me nos diálogos espetaculares  —ou debates — entre Naphta e Settembrini, uma peça elaborada e ricamente exposta, em vários aspectos. Além da qualidade dos argumentos e dos temas, existe a cumplicidade entre ambos, a despeito da divergência de posições e defesas intransigentes. Mesmo sem o desejo de reconhecer a necessidade um do outro, cujos antagonismos parecem tornar ainda mais imprescindível a coexistência intelectual, não existe ódio ou desprezo, pelo contrário, parecem se alimentar mutuamente, o que não é mau e pode, talvez, fazer um e outro adequar os seus pensamentos ao escrutínio da verdade. Bem diferente dos tempos hodiernos, em que a maioria dos intelectuais prima pelo “orgulho” de ouvir a própria voz, quando muito dos seus pares, e afastam-se do espírito a permear a cultura por milénios: as ideias se façam audíveis, seja ela qual for, e as inconsistentes e amorfas sucumbam à própria incapacidade de respirar, e não por serem asfixiadas, com a finalidade de haver um monopólio, seja filosófico, ideológico ou científico. Pode ser apenas os efeitos de uma paixão, como aquela pessoa que odeia a cor azul e por isso não olha o céu… só nos dias nublados e chuvosos.

 Em tempos de monomania intelectual e do politicamente correto, Mann sinaliza para o debate, a discussão, sem a necessidade de destruir ou silenciar o oponente, pois somente através dele e de seus argumentos pode-se crescer e aperfeiçoar-se — e a experiência humana de coexistir pacificamente, sem a obrigatoriedade de todos se tornarem unânimes nesse ou naquele aspecto, pode ser alcançada.

Por isso, faço questão de ressaltar não somente os diálogos/debates entre o padre comunista e o humanista italiano, mas também dos demais membros da confraria do “Sanatório”, em Davos, nos Alpes, onde se desenrola a narrativa. Perceber-se-á divagações e furos no pensamento de todos, mas assim não é o homem?… Contudo, pode-se ter uma aula, inclusive de convívio organizado  — mesmo havendo algum grau de superioridade, presunção quanto ao que pensam ou são — os longos debates entre eles — cujas testemunhas são sempre o Hans Castorp e Joachim — faz os jovens testemunharem e aprenderem o valor da reflexão.

Este capítulo, em especial, é um exemplo do nível que tento ilustrar: “Da cidade de Deus e a redenção do mal”,  inequívoca alusão a Santo Agostinho e o seu “A Cidade de Deus”. Ele aponta para a interessante afirmação de os movimentos revolucionários modernos — p. ex. a Revolução Francesa, Russa, etc.— serem fomentados pelos escritos de Tomás de Aquino e disseminados pelos tomistas, séculos depois. Algo realmente inusitado mesmo entre os clássicos — um nível de debate altíssimo e poucas vezes visto ou lido.

No mínimo, uma experiência filosófico-teológica em estado puro.

Veja o que encontrei na boca do personagem Naphta, ao contestar o “humanismo” de Settembrini. Ele trata de questões reais mas, também, indo além em termos metafísicos e subjetivos, sem deixar de adentrar o “mundo dos vivos”. Questões como liberdade, responsabilidade, revoluções, política, juventude, movimentos de massa, teologia e muita filosofia estão presentes, ainda que alguns pontos sejam tocados superficialmente, de maneira incipiente — os diálogos são capazes de aguçar a mente do mais desinteressado leitor.

O referido capítulo constitui-se em algo primoroso, revelando o alto grau de conhecimento e informação — certamente, decorrente de anos e anos de estudos de Mann — para imprimir no decorrer de tantas páginas uma discussão incomum e detalhada, e ainda assim prender a atenção do leitor sem levá-lo ao tédio ou exaustão, mas chamando-o para o diálogo e a tirar por si mesmo as necessárias conclusões.

A exposição é longa e muito bem detalhada, e cada um pode atestar a sofisticação do debate que, não me esquivo a assumir, pende mais para os argumentos do italiano. Deixo apenas a indicação, a quem se interessar, para ler a partir da página 543: vale cada palavra!

Falando um pouco do livro, no geral, ele não é para qualquer um. O autor parece não estar nem um pouco interessado em “agradar”, pois não temos reviravoltas, surpresas, mudanças repentinas de atitudes e ações abruptas — notadamente aquelas colocadas para assustar ou impactar. O livro está em um desenvolvimento lento, progressivo, e, ao nos depararmos com um movimento menos convencional, não somos pegos desprevenidos, pois há insinuações e pistas espalhadas, bastando notar e ajuntá-las.

Por outro lado, há um circunlóquio necessário — insinuei no 1º parágrafo — diria imprescindível, e que pode levar o leitor a se apaixonar, pouco a pouco com o texto. A partir daí, cria-se intimidade, empatia com os personagens tão díspares e ao mesmo tempo tão comuns —  como qualquer um de nós em suas habitualidades — a compartilharem angústias, medos, alegrias, esperanças… a trivial e complexa humanidade.

O ponto central da obra — e me arriscarei a ser confundido entre a ousadia e a petulância — refere-se à morte; mais detidamente, à descoberta da morte e a todas as suas consequências para o bem e o mal. Há aí uma profunda implicação no tempo: a morte não surge como um mero final ou a cessação da vida, mas como um estilo, uma presença que, pouco a pouco, deixa sua sombra envolver as pessoas e o próprio ambiente.

Após algumas dezenas de páginas, não há volta: está-se fisgado.

Também é necessário paciência; não é um livro para apressados. Como em uma lauda refeição, se comer a entrada rápida e vorazmente não haverá espaço para degustar o prato principal, quiçá a sobremesa.

Os persistentes serão contemplados e recompensados com uma lauta, deliciosa e inesquecível refeição. Pode não ser do agrado de todos, mas o paladar requintado não se decepcionará. E haverá aqueles com indigestão. Para esses, não há antiácido a aliviar-lhes algumas cólicas.

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Avaliação: (*****)

Livro: A Montanha Mágica

Autor: Thomas Mann

Páginas: 865

Editora: Cia das Letras

Jorge F. Isah

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