O Presidente e o Expresso

Existem surpresas agradáveis, quando não se espera e recebe o livro “Of Time on The River” autografado por Thomas Wolfe, o Sennheiser Orpheus, ou a Kombi “Beach Bomb” da Hot Wheels, e similares divertidos e interessantes. Por outro lado, existem as surpresas que não são surpresas, ainda que surpresas, mas daquelas que se odeia e deixam um gosto amargo na boca e ardor nos olhos, além da repulsa em tocá-los. Foi o que me aconteceu nesta manhã. Ao preparar-me para sair, encontrei um grande envelope branco no chão da garagem. Não era dos Correios, pois eles entregam, na minha região, entre 13 e 15 h, de segunda a sexta. Era uma quente, ensolarada e límpida manhã de sábado, céu de brigadeiro e uma leve brisa marítima.

— Que raios vem a ser isso? — disse, enquanto me dirigia ao invólucro.

Peguei-o e havia o brasão de armas do Brasil, com o meu nome e endereço logo abaixo. No verso, os dizeres:

“Presidência da República do Brasil”.

Pensei, será que finalmente marcaram a consulta com o gastroenterologista? Seria o anúncio de um novo revoar de pombos na Esplanada? Ou o título de cidadão honorário de Brasília?

O envelope era grosso, de um branco impecável que o chão não maculou; devia custar uma grana. Abri e dentro havia três folhas: uma carta, um mini pôster e por trás um cartão em branco, para sustentar e não estragar o cartaz principal. Na carta, os dizeres:

“Com alegria, atendemos a sua solicitação para receber a foto do eminente presidente da república do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Desculpe a demora e espera, pois são milhões de pedidos. Mas finalmente cumprimos com o nosso dever. Agora, você tem o Presidente ainda mais próximo.

Com o carinho do Presidente.

Gabinete da Presidência do Brasil”.

A foto, em papel “Baryta Prestige”, era de altíssima qualidade, com cores vibrantes, com muitos detalhes, e, no caso do presidente, apenas realçavam ainda mais a sua assimetria, para dizer o mínimo.

Há quem diga que o Estado é ausente. Tolinho… Ausente seria se me deixasse em paz. Mas não, fizeram questão de atravessar quilômetros apenas para informar, em papel cartonado e especial, que continua sabendo exatamente onde moro e de que talvez, na próxima, a coisa seria diferente.

Mas a culpa deve ser minha, que provavelmente preenchi algum formulário equivocadamente, enquanto era examinado pelo urologista:

□ Deseja receber atendimento médico?

□ Deseja redução de impostos?

□ Deseja uma fotografia do Presidente em papel de luxo?

Claro que marquei a terceira opção, ora bolas!

Picotei tudo em minúsculos pedaços, joguei na lixeira e, após tomar um despretensioso expresso, lancei a borra sobre eles. Ao menos, serviriam para não deixar vazar a umidade para o fundo do cesto.

E me vi aqui, a escrever algo que, juro, nem nos meus pensamentos mais insanos e doentios imaginei-me capaz. Mas o brasileiro, e seu jeitinho, é um poço sem fim de artimanhas.

Jorge F. Isah

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