O que é uma obra de “ficção histórica”? E o que significaria a adicional explicação de que essa mesma obra é “inspirada” na vida de alguém? Quais seriam os limites dessa relação entre “ficção” e “história”? E a palavra “inspirada” abriria ainda mais a possibilidade para que a narrativa seguisse para qual direção — a história ou a ficção?
Acredito que todos esses pontos de interrogação não apenas revelam o fascinante mundo dessa trama que é o recontar histórias reais, mas, principalmente, que é possível, de fato, preenchê-las com material que conecte espaços vazios para ajudar o leitor a mergulhar naquele universo ao qual tentamos atraí-lo. Contudo, em muitos contextos e para muitos escritores, preencher lacunas e fazer ligações entre fatos dispersos vão para muito além de ajudar o leitor a compreender melhor a história e tendem a avançar para o terreno da interpretação — mas aquela que é construída e oferecida pelo próprio escritor.
O Desafio de Narrar Gigantes
A autora de “Srª Lewis”, Patti Callahan, sabe que o desafio de sua empreitada narrativa é enorme, pois ambos, C.S. Lewis (Jack) e Joy Davidman, além de já terem sido estudados e comentados mundo afora, são bem queridos e admirados por grande parte do público. Por isso, na nota do livro, ela tenta mostrar como se deu a confecção dessa “ficção histórica”, que foi “inspirada” na vida do casal:
“Nesta ficção histórica, as cartas e os diálogos entre Joy e Jack, assim como entre sua família e amigos, foram criados pela minha imaginação. Embora esta seja uma obra de ficção, meu desejo foi manter-me o mais próximo possível do esqueleto existente e factual; portanto, tanto a inspiração quanto trechos ocasionais, expressões e citações nas cartas, nos diálogos e nas reflexões internas de Joy vieram de eventos reais, cartas, poemas, ensaios, biografias e artigos escritos por e sobre ambos, bem como de discursos que eles proferiram. […] Fiz o meu melhor para reunir todas as informações, compará-las e desvendá-las a fim de contar uma história que transmita uma verdade emocional. […] Tentei capturar a coragem e a forte determinação de Joy, bem como mergulhar na paisagem de seu coração.”
A autora mostra que seu trabalho foi feito com pesquisa, respeito, mas também com muita admiração e paixão pelos personagens envolvidos. Callahan é autora best-seller do The New York Times, finalista do Prêmio Townsend de Ficção e indicada diversas vezes ao prêmio de Melhor Romance do Ano pela SIBA. Tudo isso assegura ao leitor que a obra que temos às mãos é fruto de um trabalho de qualidade profissional.
Do Cinema para as Páginas: O Choque de Expectativas
Dito tudo isso, posso passar ao livro e à narrativa que muito me envolveu. Minhas emoções e avaliações foram desde as mais favoráveis até as mais escandalizadas.
Quem assistiu ao filme “Terra das Sombras” (1993), com os ótimos atores Anthony Hopkins e Debra Winger, perceberá logo as grandes diferenças da obra de Callahan para a película. Surpresas à parte, para mim, foi inevitável que, durante toda a leitura de “Srª Lewis”, eu só conseguisse ver na minha mente Hopkins e Winger como os personagens. Embora isso tenha ocorrido por quase todas as 541 páginas do livro, logo de início vi que as narrativas do filme e do livro iriam se distanciar muito uma da outra.
Dentre os tantos pontos positivos do livro, há o de conhecermos a Joy em maior profundidade. Cada capítulo inicia com versos dela, que podem ser encontrados na íntegra em seu livro dedicado a C.S. Lewis, intitulado “A Naked Tree: Love Sonnets to C. S. Lewis and Other Poems”. Há versos realmente encantadores:
- “Eu trouxe ao meu amor obediência; curvei minha mão / E levei submissão à sua boca sedenta” (Soneto 8)
- “Não fique zangado por eu ser mulher / E, assim, ter lábios que desejam o seu beijo” (Soneto 39)
- “Sim, eu sei: os anjos desaprovam / O jeito como olho para você” (Soneto 38)
- “
Certamente não vai matá-lo, / Mas também não vai deixá-lo dormir à noite” (Soneto 3)
- “Ame-me ou não, as folhas cairão / E caminharemos sobre elas. / Eu tenho minhas alegrias” (Soneto 41)
Outro ponto positivo que gostaria de destacar é vermos como, a partir da amizade dos dois, pelo menos três obras primas de Lewis são construídas: “Até que tenhamos rostos”, “Surpreendido pela alegria” e “Reflexões sobre Salmos”.
Eu concordo com Callahan quando ela defende a importância de trazermos à tona as mulheres que tanto influenciaram nossos escritores. O livro surge exatamente sob esse desafio, saciando a curiosidade de muitos que desejam conhecer a mulher por quem C.S. Lewis se apaixonou perdidamente. Afinal, o que teria levado um solteirão de 58 anos a se enlaçar matrimonialmente com uma americana 17 anos mais nova? A obra narra o desenvolvimento dessa relação por mais de dez anos — uma amizade que floresce não apenas sob uma grande diferença etária, mas, principalmente, em meio à diversidade cultural entre uma mulher nova-iorquina e um autêntico senhor inglês de Oxford.
As Contradições de uma “Pecadora”
Joy é uma ex-ateia e ex-comunista, descendente de judeus, cuja conversão nos é apresentada logo no início. Durante a leitura, fui surpreendido por duas questões incômodas.
- A Desconstrução do Mito: Me vi chocado pelo fato de a personagem do livro se diferenciar muito daquela do filme. Vi-me cobrando isso da Joy de Callahan e me sentindo frustrado por não ver nela a figura mais madura que encontramos nas telas.
- A Humanidade Crua: A Joy de Callahan é uma pecadora que erra de maneiras que se tornaram para mim quase insuportáveis.
Um de seus erros, ao meu ver, é o fato de abandonar os filhos nos Estados Unidos de agosto de 1952 até janeiro de 1953. Claro que a personagem tenta justificar esse abandono de diversas maneiras — desde a presença opressora de seu marido alcoolista e mulherengo até a oportunidade de fazer uma pesquisa acadêmica na Inglaterra e a conquista de sua independência.
Aliás, o tom feminista é bem marcado no livro. Contudo, em meio a um casamento já em ruínas, e sabendo quem era seu marido, ela sai de casa por seis meses deixando ele e os filhos ao cuidado da prima bonitona que morava com eles. Crônica de uma morte anunciada, óbvio! Há realmente decisões que ela toma que são muito difíceis de entender.
Uma Espiritualidade sem o Mediador
Tendo se convertido no início da trama, Joy nem sempre faz as reflexões necessárias para sua própria vida e filhos sob uma nova perspectiva. Por outro lado, sei que também não posso ser impaciente a ponto de esquecer que ela é uma neófita em sua jornada pessoal de amadurecimento cristão.
No entanto, o cenário eclesial e teológico desenhado pela autora incomoda. Ainda que houvesse uma igreja que ambos frequentassem, não se vê um acompanhamento, uma interferência ou um aconselhamento bíblico em nenhum momento. Não há Bíblia! O Deus que brota das páginas de “Srª Lewis” é um Deus difícil de trazer para perto de Joy. Daí não me surpreender que esse Deus acabe parecendo sádico em algumas elucubrações feitas pelos personagens.
As palavras “Deus” e “amor” surgem várias vezes no livro, mas “Jesus” aparece apenas três vezes — e, em uma delas, numa oração em que Joy conclui que não há resposta alguma da parte Dele. Como conhecemos a Deus se não for pela Palavra e por seu Filho? Sabemos que Joy está escrevendo vários artigos sobre os dez mandamentos, mas ela mesma, ainda que apaixonada num desejo não correspondido por Lewis, busca um parceiro sexual para satisfazer sua carência de eros.
Há um momento, quase no final, em que ela se arrepende e parece se render ao Deus que tudo controla. Ainda que haja frases claras e corretas mostrando que nossas virtudes morais sem a Graça divina podem se tornar prisões (pois não alcançamos o favor de Deus pelos nossos próprios méritos), ainda assim faltou a pessoa de Jesus. Nada aponta para uma relação pessoal com Ele, embora Aslan apareça nas entrelinhas.
O Perigo da Idolatria no Amor Sacrificial
É nesse emaranhado de confusão emocional que surge, finalmente, o que mais me incomodou. Durante boa parte das divagações de ambos, fala-se naqueles tipos de amores tratados por C.S. Lewis em uma de suas obras clássicas:
“Em grego, temos storge para afeto, philia para amizade, agape é Deus e, claro, eros. Porém, mesmo as palavras, gregas ou não, são incapazes de conter a verdade do que ele é ou não é”.
A maior luta de Joy com Lewis, no livro, é trazê-lo de seu philia (amizade) para o eros (romance) que ela tanto quer consumar. E o desfecho levanta duas situações teologicamente complicadas.
A primeira, depois que o câncer de Joy é revelado, é que tudo aponta para um Lewis arrependido por “perder tempo”, sugerindo que ele deveria ter se entregue ao eros antes, mas que suas virtudes religiosas o impediram de fazer esse movimento final no tabuleiro.
A segunda, e mais grave, ocorre em um momento de intercessão: Lewis pede a Deus que tire a dor de Joy e a lance sobre ele. Ela começa a melhorar; o câncer entra em remissão. A partir daí, as divagações de Joy passam a orbitar o fato de que Lewis é o seu substituto — de que Deus lançou sobre ele as dores dela.
O Vazio Preenchido pelo Mito
Isso gera uma profunda confusão conceitual. Falando assim, não estamos mais no terreno da philia ou do eros, mas do agape. Como não há a figura de Jesus na construção desta história — a pessoa do Filho que verdadeiramente troca de lugar conosco —, sobra para Lewis assumir essa função no coração de Joy.
Isso é, essencialmente, idolatria. O próprio livro já havia definido que agape é o amor que se refere estritamente a Deus. Se naquele momento final ela compreendesse a atitude de Lewis como uma mera analogia à obra de Cristo, a narrativa teria alcançado uma excelente oportunidade para apontar o que só o Evangelho pode fazer. Mas, em um livro “sem Jesus”, o amor agape encarna-se em Lewis.
Esse mecanismo mental — onde se origina a idolatria e o sincretismo — está presente em boa parte das experiências místicas e espirituais ao redor do mundo, em quaisquer culturas, inclusive no meio evangélico.
Fica, ao fim da leitura, a provocação essencial da ficção histórica: se a Joy real compreendeu as coisas dessa maneira mesmo, só saberemos lendo e estudando profundamente suas biografias e textos. Ou terá sido a autora, Patti Callahan, quem projetou sobre sua personagem essa sutil e romântica confusão?
Fábio Ribas