Um dia você acorda e se considera a última bolacha do pacote.
Está convicto de que é um iluminado. Tradição, costumes e dogmas são bobagens, coisa de gentinha.
Não, você não acredita em contos da carochinha, explicação não científica, em tabus.
Não, você não faz parte das bolhas mentais. Só desaparece quando elas estouram.
Não, você não é mais um homem primitivo e retrógrado, apegado ao misticismo.
Não, você não é cauda, mas cabeça.
Não, você é o novo homem, que se autoconstrói. Uma peça única — raridade em série.
Não, você não sai à caça da primeira novidade da psicologia e terapias alternativas.
Não, você não aceita moralistas e religiosos. Você é racional e empírico: não sai de casa sem ler o horóscopo.
Não, você não se deixa vencer pela adrenalina e se joga do alto de 100 metros, balança no ar como um ioiô, apenas confiando no dono do negócio.
Você não quer saber de família, sentimentalismo e comoção, mas quando vê o seu ídolo, se descabela, ri e chora ao mesmo tempo, procura logo uma caneta e guardanapo, depois pega o autógrafo e guarda com carinho na carteira, junto da foto do Lulu e da Mel.
Você não acredita em igreja, padres e pastores. Mas ao menor sinal do seu político de carteirinha…
Você acredita em Gaia, Eros e Baco.
Você é autônomo, dono do próprio nariz, mas vive às custas do papai e mamãe — depois, do Estado.
Toda a sua vida disse o que era, para viver o que não era.
Parabéns: você é o novo velho.
Soprando mil velinhas.
Sem presente. Sem abraço.
Jorge F. Isah