Velório da vó Bia. Tristeza. Flores. Homenagens. Choro.
Pedrinho, com a mão na borda do caixão, lembra com tristeza das brincadeiras da vó Bia. As piadas antigas e sem graça que causavam riso porque não tinham graça. As brincadeiras antigas que fazia questão de ensinar aos netos. Até puxava para fora do sofá aqueles que não queriam brincar. As imitações dos parentes, cada arremedo gostoso que dava muitas gargalhadas. As histórias de cemitério que contava nas noites em que faltava energia elétrica, deixavam-nos de cabelo em pé e ainda concluía: “foi tudo verdade merrrmo!”. As lembranças iam e vinham na cabeça do menino, imerso no choque da morte e do ambiente solene.
Vó Bia era meio enigmática. Dizia que se comunicava com o céu. De vez em quando ficava falando sozinha olhando ao céu. Quando lhe perguntavam sobre o que falava, dizia que “estava acertando umas coisas”. Ninguém entendia.
Agora, no caixão, parecia serena e até sorridente. Um rosto em profunda paz. Uma lágrima teimava em escorrer dos olhos do menino. A vó era muito amada.
Súbito, Pedrinho vê a vó mexer a mão rapidamente e tocar na sua. Susto. Deu um passo pra trás. Tempo de suspense e coração sobressaltado. Olha em volta. Ninguém notou, só ele. Refaz-se. Aproxima-se lentamente do caixão. O corpo estava inerte. Sem movimentos. Teria sido só uma impressão?
Lembrou que vó Bia havia lhe dito que “não morrerei, apenas irei dormir e acordar em outro lugar, meu neto querido”. No entanto, o corpo jazia imóvel e sem vida.
O que viu foi uma impressão das suas lembranças tão vivas? Ou a mão da vó realmente… Não queria pensar nisso.
O coração do menino começa a acalmar e bater de modo normal.
Pedrinho levaria a vó Bia no coração e aquela dúvida do velório para toda a vida.
Aldair R. Santos