Séries, Eastwood e Gestapo

Tenho assistido a muitas séries antigas, aquelas dos anos 60, 70 e 80 que apenas os velhos se interessam. Eu não vivi esses tempos, mas de alguma forma tenho saudades do não visto e vivido em relação ao que vejo e vivo por estas bandas tupiniquins. As razões são, sem ordem de importância:

  1. Nostalgia, pura e simples (nem Freud explica);
  2. Fugir da loucura e psicopatia dos filmes e séries atuais (com raríssimas exceções), e acabam por refletir uma vida de delírios, mulas sem cabeças e unicórnios a povoar as mentes e as línguas de muitos;
  3. Avaliar a veracidade quanto ao nível de opressão e falta de liberdade no passado, onde, segundo os ideólogos e especialistas de plantão, as pessoas andavam em correntes e jaulas enquanto eram marcadas a ferrete;
  4. Constatar os valores perdidos ou a se perder, hoje e amanhã;
  5. Entender a razão de tanto ódio a uma existência mais simples e menos combativa e belicosa (quero dizer, lacradora);
  6. E, por fim, divertir sem me sentir culpado por dar risadas frugais ou derramar aquela lágrima emotiva.

Bem, pode parecer muito, mas a verdade é que raras coisas na atualidade me motivam o interesse, e muitas vezes fazem-me sentir como se estivesse em um hospício a céu aberto, cercado de loucos por todos os lados. Fico a imaginar um(a) “militante politicamente correto” assistindo, por exemplo, um capítulo de “A Feiticeira” ou “Jeannie é um gênio”. No primeiro caso, uma mulher literalmente “empoderada”, pois possui poderes sobrenaturais para satisfazer praticamente todos os seus desejos, se submeter alegremente a uma vida simplória e trivial de esposa e mulher do lar. Por amor ao seu marido, James, Samantha deseja se tornar a melhor esposa, mãe e dona de casa. Nem sempre consegue, mas é o seu objetivo de vida. Imagino o(a) militante quebrando a tv, a amaldiçoar Elizabeth Montgomery e Dick York por toda a vida… e nem preciso entrar nos detalhes.

No segundo caso, Jeannie é uma figura dos contos de fadas, capaz de realizar qualquer desejo do seu “amo”, o Coronel Nelson, que a encontrou em uma garrafa em uma ilha deserta. Ela pode fazer tudo, mas quer apenas e tão somente o amor e a atenção do seu amo, e a sua maneira desastrada e ingênua cria situações hilárias ao colocar em apuros o alvo do seu amor. Qualquer militante exemplar, daqueles que usam carteirinha e botton de “chato de galocha”, seria incapaz de se divertir com as peripécias de Samantha e Jeannie, pelo simples fato de imaginar aqui e acolá elementos claramente discriminatórios, opressores e estereotipados das mulheres. A ideia dos produtores e diretores e atores era apenas divertir o maior número de pessoas, arrancar delas risadas e momentos de descontração. Mas a militância não vê nada além de culpados e réus confessos, a difundir o domínio e a hegemonia do patriarcado. O pensamento dessa turma é linear, como uma extensa área inóspita e estéril no deserto, onde não se pode produzir nada de bom.

Ontem, assisti ao quase último filme de Clint Eastwood, “Cry Macho”, título irônico mas capaz de desagradar uma boa parte de espectadores, porque não tem muita ação, nem reviravoltas mirabolantes, ou sangue e células espalhadas em paredes, pisos e adereços. O filme nos dá a ideia do quanto Eastwood se divertiu ao produzir, dirigir e protagonizar a película. E é impossível, ao menos o foi para mim, não se divertir também. O roteiro é simples, a trama não é intrincada, não existem discussões ou defesas de pautas das agendas progressistas (sic), porque é um filme igualmente simples, a falar da vida, para a maioria das pessoas e não para um grupo minúsculo de iluminados, ansiosos por um Mickey gay, um Super-Homem trans ou um Padre Brown a usar linguagem neutra. Em suas obstinações por fazerem-se ouvir, não ouvem ninguém, na verdade, não se interessam em ouvir nada além da própria voz e o ecoar em seus pares, em patrulhar a vida alheia como se fossem membros da Gestapo, KGB ou CIA. Enquanto os fofoqueiros do passado especializavam-se em não serem descobertos ao disseminarem seus fuxicos  — muitas vezes apenas por simples diversão —, as novas patrulhas de fofoqueiros querem a censura, a prisão e em alguns casos a morte dos acusados. E qual o crime?… Pensar fora da caixa oca ou um saco cheio de…

Eastwood não fez um filme para ganhar o Oscar e encher páginas de jornais e sites especializados em cinema de lorota e lenga-lenga ideológica ou intelectualóide. Do alto dos seus mais de 90 anos, quis fazer algo divertido e no qual se divertisse. Evidente ser um filme de qualidade, afinal, é possível se divertir sem abrir mão do talento e habilidade, e talento e habilidade podem aumentar em muito a diversão… E quanto menos pretensioso, maior a chance de dar certo, como é o caso em questão. Não entendo a queixa dos detratores, e mesmo a falta de argumentos. Uma rápida pesquisa na web e verá a maioria dos comentadores falarem da idade do Clint, do andar titubeante, de já passar da hora de se aposentar, e variações do tema. Quase não existe a análise da obra em si, e quais seriam os pontos favoráveis e negativos. Parece um fetiche com a idade provecta do astro, capaz de ainda produzir, dirigir e protagonizar sem criar um pastiche de si mesmo ou de sua obra, enquanto a maioria dos “mortais” anseia aposentar-se aos cinquenta e não fazer mais nada na vida. Isso deve dar uma inveja e uma dor de cotovelo danada… e certamente tem tudo a ver com a longevidade artística de Eastwood.

Esta geração — tão acostumada a zumbis e vampiros, monstros e heróis de vidro, enquanto vivem a irrealidade do Meta Verso, RPG e um mundo onde poderiam tomar altas doses de adrenalina em amostra grátis — não me parece treinada para a vida real, para as coisas elementares e fundamentais, para a simplicidade, a fraternidade, gestos ingênuos e despretensiosos, atitudes delicadas, suaves e acolhedoras, tudo isso sem uma lei por detrás ou o discurso inflamado da última “bolacha do pacote”. “Cry Macho” ultrapassa em muito a caricatura na qual se transformou Hollywood e seu discurso panfletário e hipócrita  — com raríssimas exceções, como neste caso —: as pessoas são comuns, os problemas são comuns, as soluções nem sempre são perfeitas e absolutas, mas existe lugar para a verdadeira empatia, identificação, sem a necessidade de se ditar regras e fórmulas a se repetir pela ação da epinefrina, especialmente na área da língua e cordas vocais e quase nada no intelecto dos replicadores de patrulhas.

Por falar em galos — sei, ninguém tocou nisso por aqui —, a prova das intenções de Eastwood estão evidenciadas no fato de o herói, no sentido audacioso e intrépido do termo, ser o galo “Macho”, do pequeno Rafa (Eduardo Minett), o garoto a quem Mike (Clint) foi buscar no México para entregá-lo ao pai, no Texas. Ao receber “Macho” como presente, Mike promete cuidar do herói, numa alusão à cumplicidade e a troca de experiências; o “Macho” de Mike não é o mesmo de Rafa, mas não é impossível compartilhá-lo e, até mesmo, discutir sua importância, sem que para isso sejam forçados ao inexorável antagonismo.

Infelizmente, hoje em dia nada é inocente, ingênuo ou honesto. Sempre existe um culpado ou culpados pelo não dito e pelo não feito, mas supostamente dito e feito na mente dos inquisidores modernos, dispostos a — via de regra, e à revelia¹ — imputar e culpar qualquer um a contrariar-lhes delírios e incoerências mentais, desde que não seja a si mesmo e seus análogos. Faz parte da guerra; e se não há inimigos é preciso criá-los de qualquer maneira, nem que seja forjando conflitos, trincheiras e barreiras onde sequer eram imagináveis. Orwell acertou em cheio ao descrever a novilíngua destes tempos, a Stasi a dominar consciências e objetivos nada lúcidos e realistas.

Voltando ao seriado “A Feiticeira”, em uma cena onde Stevens e Tate conversam sobre a suposta gravidez de Samantha, ouve-se o seguinte diálogo:

– O que você espera, James? – Diz Larry.

– Ora, menino ou menina! – Responde Stevens.

Se fosse hoje, provavelmente em uma sala de aula, consultórios terapêuticos ou em ambientes descolados  — a minoria da minoria minoritária — a resposta seria um daqueles antigos catálogos telefônicos… E ai de quem não estiver atualizado com as últimas novidades e modelos listados e se esquecer de um deles: a Gestapo o enviará ao Gulag mais próximo. 

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Nota: 1- uso o termo não a designar simplesmente qualquer um, mas qualquer um não alinhado, se me entende.

Jorge F. Isah

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