Natan e o tapa pedagógico

Caruaru – Pernambuco, 1967. Era um dia calorento. O suor insistia em escorrer. O bispo estava visitando a escola naquele dia. Como era costume, todos os alunos estavam em formatura no pátio, debaixo do sol escaldante.
            A visita do Bispo era um grande acontecimento. Não era comum ver uma autoridade eclesiástica, muito menos tocá-la. Por isso, em consideração, era hábito todos os alunos se ajoelharem perante o Bispo, em respeito e reverência. E assim fizeram… menos o menino Natanael. O curumim franzino, do meio do pátio em postura firme, provocava solitariamente as autoridades escolares. A Diretora vira os olhos e balbucia um resmungo. Todos ajoelhados e o menino Natan em pé, igual um Téteu empinado, firme e desafiante. Os colegas ajoelhados o avisavam baixinho: “senta, Natan!”, “menino doido!” Professores olhavam com surpresa e raiva: “Uma afronta desse menino!”, “tinha que ser o Natan!”
            De súbito, um tapa no pé do ouvido o desestabiliza. Quase cai. Recompõe-se e permanece em pé. Firme. A supervisora veio por trás tentar “ensinar” ao garoto a se comportar perante a autoridade do bispo. “Ajoelha, menino!” — foi o grito da supervisora depois do tapa pedagógico.
            “Meu pai me disse que a gente só deve ajoelhar diante de Deus!” — foi a resposta firme do menino Natan, com o dedo em riste na direção da supervisora. E não se ajoelhou. Não conseguindo seu intento, a supervisora passou ao plano B e o ignorou. A Diretora pediu desculpas ao bispo e fez pouco caso do curumim. Saíram para visitar a escola.

Natan era assim, teimoso. Depois o pai foi chamado por causa desse “mau comportamento” do menino. Cedo o menino Natan descobria (e sentiu no pé-do-ouvido) a difícil questão da intolerância religiosa no Nordeste nos anos 60.

Aldair R. Santos

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