Ele era um resmungão. Reclamava de tudo, não sem razão, pois o mundo ia de mal a pior, as pessoas iam ficando gradativamente malucas, e até inventaram esse negócio de “farmar aura”, quando concluiu que a raça humana não tinha salvação, que o mundo acabaria em pouco tempo e não sobraria nada, como aconteceu em Marte.
Ele não se contentava com os rumos que estava tomando o planeta, e em vez de fazer a sua parte para tentar mudar alguma coisa, se restringia a reclamar, o que incomodava as pessoas ao seu redor, e por isso foi ficando cada vez mais isolado, até se tornar um autêntico eremita.
Deixou os cabelos ralos e a barba ainda menos espessa crescerem desordenadamente, emagreceu a ponto de tornar-se um esqueleto ambulante e parou de tomar banho. Não arrumava a casa, não jogava lixo fora e as ervas daninhas foram tomando conta do piso e se entranhavam nas paredes.
Certo dia, uma criança do bairro, pensando se tratar de uma casa abandonada, conseguiu entrar pela porta dos fundos, até se deparar com aquela figura fantasmagórica no meio da sala, que perguntou ao garoto boquiaberto:
– Que dia é hoje?
Com muita dificuldade e gaguejando muito, o menino respondeu:
– Se-se-se-se-sex-ta-ta-ta-ta fe-fe-fe-feira…
– Ah, então amanhã é sábado! – e ganhou o corredor em direção ao seu quarto.
Michel Salomão