Cantinflas: uma avalanche de risadas

Mario Fortino Alfonso Moreno Reyes é praticamente desconhecido da cena mundial. Nascido em 1911 e falecido em 1993, é, contudo, mundialmente famoso pelo apelido “Cantinflas”, um cômico notável e celebrado não somente como o maior humorista mexicano, mas como um dos maiores de todos os tempos. Charles Chaplin disse, certa vez, que Cantinflas era o melhor humorista vivo; mas, mesmo morto, pode ser facilmente incluído no panteão dos mais ilustres e geniais comediantes da história.

Nascido na Cidade do México, filho de um carteiro e de uma dona de casa que tiveram, no total, oito filhos, cresceu no bairro violento e pobre de Tepito. Venceu os inúmeros obstáculos da infância com a sagacidade e a astúcia necessárias para não sucumbir aos reveses diários. Tudo isso o ajudou a formar e amadurecer o conceito de seu personagem.

Na adolescência, abandonou os estudos para se juntar a um grupo itinerante de artistas mambembes, no qual foi bailarino, acrobata, cantor e mímico. Pouco tempo depois, entrou para um grupo de teatro de variedades, onde começou a desenvolver os traços do personagem Cantinflas. O tipo estrearia em 1936, no filme No te engañes corazón, definindo o caráter cômico que o identificaria como ícone das comédias e reflexo do homem do povo: o mexicano pobre, atabalhoado, desastrado e confuso. Evidentemente, para os politicamente corretos, não se deve confundir reflexo com representação, pois o humor trabalha com elementos reais de maneira a não retratá-los como são, mas sim de forma hiperbólica, às vezes grotesca, exagerada, farsesca e bufarinheira. No caso de Cantinflas, ele é o anti-herói — ou melhor, o herói improvável — que derrota seus adversários ricos e poderosos, a polícia e o governo por meio de trapaças e malícia, em meio a embaraços e muita confusão.

Assim como Chaplin fez com o seu “vagabundo” (e ele foi uma das grandes inspirações para Moreno, visto que ambos eram satíricos sociais), levando multidões a se deliciarem com suas aventuras — pois a capacidade de rir de si mesmo e do outro é um dos “truques” para entender o seu tempo e suplantá-lo (naquilo em que é necessário superar, pois nem tudo tem de ser alterado ou eliminado simplesmente por existir) —, Cantinflas tinha marcas registradas inconfundíveis. As calças largas quase caindo, o lenço atado ao pescoço, o bigodinho fino à mostra apenas nos cantos da boca, o chapéu e a forma de falar atarantada, desconexa e carregada de expressões populares e sotaques típicos do México eram suas características principais, capazes de torná-lo um verdadeiro herói no mundo hispânico, em primeiro lugar, e, depois, um sucesso mundo afora.

Concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo filme A Volta ao Mundo em 80 Dias, baseado na obra de Jules Verne, contracenando com o multipremiado ator inglês David Niven. Sua carreira durou mais de 50 anos e somou dezenas de filmes, tendo como auge as décadas de 1950 e 1960.

Quanto à origem do nome Cantinflas, existem muitas hipóteses, mas o próprio Mario Moreno encarregava-se de confundir ainda mais a curiosidade alheia: desconversava ou emitia respostas ininteligíveis para trazer mais frenesi à questão. Ao seu jeito, não perdia a oportunidade de rir e deixar perplexos os interessados. Sabe-se, entretanto, que ele criou o nome para não ser descoberto pelos pais, nada amistosos quanto a ter um filho ator.

Casou-se em 1936 com Valentina Ivanova Zubareff, de origem russa, e permaneceu casado até a morte da esposa, em 1966. Teve um filho fora do casamento em 1961, e Valentina o adotou.

Retirou-se do cinema em 1982, sempre ajudando novos artistas a se desenvolverem. Era conhecido por sua generosidade e filantropia, auxiliando financeiramente diversas instituições humanitárias, especialmente em seu próprio país.

Morreu em 1993, na Cidade do México, mas deixou um legado passível de ser apreciado ainda hoje e no futuro, pois, a despeito da falibilidade humana, Cantinflas é imortal.

Jorge F. Isah

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