NEM DE GRAÇA

Juarez estava organizando a sua mudança para o litoral e constatou que ficaria tão caro que valeria mais a pena deixar as coisas para trás e comprar tudo novo. Levou décadas para realizar o seu sonho de morar na praia, e agora havia chegado a hora, mas o problema é que não seria fácil se desfazer de tantos itens — e, mesmo que fosse doá-los, os agraciados não se animariam a pagar os respectivos carretos. Era complicadíssimo conseguir essa espécie de transporte, normalmente realizado em Kombis ou pequenas caminhonetes, pois os ajudantes não se dispunham a trabalhar. Preferiam se manter precariamente com os auxílios do governo, criados para que o povo se mantenha dependente e continue votando nele.

Há pouco tempo, teve que se desfazer de um sofá grande e de um guarda-roupa que não compensava consertar, e chamou uma empresa de descartes. Foi preciso pagar para jogar no lixo. E não vieram dois ajudantes, como haviam combinado, mas apenas o próprio motorista, que teve que fazer um esforço absurdo para arrastar o pesado sofá, mesmo contando com a frágil participação de nosso protagonista, pois a coluna dele não colaborava. Para piorar, o motorista passou mal na garagem e defecou-se todo, tendo que se limpar precariamente no banheiro dos porteiros.

Alguns móveis teriam que ser içados, e ficaria bem mais caro do que conseguiria apurar com a sua venda. Perguntou ao proprietário se poderia deixar os móveis no apartamento, mas ele não aceitou. Nem de graça. O prazo para a desocupação estava se esgotando e, caso não desse uma solução, teria que pagar uma multa pesada. Um incêndio acidental resolveria a questão. Mas a coisa poderia desandar e atingir os imóveis vizinhos. Poderia haver vítimas: velhos, criancinhas, mulheres grávidas, pessoas acamadas. A notícia estamparia os jornais. Haveria uma comoção nacional. Se descobrissem que teria sido ele o autor, pegaria uns 30 anos de cana. Melhor não fazer.

Foi então que teve a brilhante ideia de alugar uma serra elétrica. Picotaria todos os móveis e eletrodomésticos, os carregaria em pequenos sacos de lona plástica e os descartaria em algum lote vago. Porém, poderia ser multado. A Secretaria do Meio Ambiente está sempre vigilante. Existem fiscais espalhados por todos os cantos, normalmente disfarçados de árvores, ursos, leões e veados.

Teria que ir de carro, de madrugada, e colocaria fita isolante disfarçando os números da placa. Se fosse pego, seria ainda pior: além de ser multado, seria preso e comeriam o seu caneco na cadeia. Não: isso jamais! Teria que arranjar uma solução. E a melhor solução seria não se mudar.

Michel Salomão

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