Este é um livro que requer muito cuidado do leitor, que pode se perder em meio a uma narrativa não linear, cheia de digressões, mudanças de ambiente, atmosfera e protagonismo. Não é um livro fácil, pelo contrário, especialmente em sua metade inicial, quando ainda se tateia o texto em busca de contato com seus elementos e fundamentos. O autor se utiliza também de longos trechos sem pontuação, frases truncadas, linhas contínuas, ajudando a criar uma imagem “hermética” — mas está muito longe disso — e complexa da obra.
A história se divide em quatro partes, cada uma delas contada por um dos personagens centrais, à exceção da última, cujo narrador é uma terceira pessoa, indeterminada. A primeira parte é narrada por Benjamin. A segunda, Quentin. A terceira, Jason. E a quarta, que trata diretamente da personagem Dilsey, por um desconhecido.
Basicamente, trata-se de uma família decadente sulista que perdeu os seus dias de glória em que controlava a região e se vê exaurir financeira, moral e espiritualmente. Em meio às tradições e às mudanças advindas do novo século (XX), a maioria está despreparada para enfrentar as contingências e surpresas em que os novos tempos a empuxam e arrojam.
Ganância, sexo, filhos ilegítimos, cobiça, furto parecem, de alguma maneira, fazer dos “Compsons” o retrato de uma sociedade que caminha arrastada pelas correntes e o peso do passado. O mal e o pecado apresentam-se definitivamente dispostos a conter qualquer resistência; nem mesmo as eventuais “aparências”, a hipocrisia arraigada na alma de alguns, subsistem ao desejo corrompido, doente e frágil, capaz de destruir e amaldiçoar as relações e os indivíduos… Por onde se olhe, mesmo que não se queira ver, os danos e a mesquinharia confinam a maioria das pessoas a um sistema de valores cada vez menos idílico e mais inconsciente, instintivo e fatal.
Há quem veja apenas uma sociedade altamente religiosa, puritana, inquisidora, retrógrada a aniquilar vidas, o que é por demais reducionista. Contudo, seria tão somente a sociedade a fazê-lo ou seriam consequências das escolhas pessoais?… A rebelião da alma em êxtase, o relacionamento mecanicista e formal com Deus, a busca do “amor” no afastamento do verdadeiro amor, como se o homem, por si só, pudesse, a exemplo de Adão, ser autossuficiente, desprezar o Bem e sair incólume… os desejos rudes e primitivos a afastar qualquer hipótese de lucidez e dignidade, de afeto sincero.
No fundo, o mal tem como premissa a negação não somente do bem, mas da origem do bem, entregando-se ao ardor da carne, leviana e obstinadamente.
Alguém poderá dizer que estou a replicar os erros que Faulkner aponta — caso os aponte —; mas, entrementes, ele está a desnudar o desejo, seja ele qual for, irresponsável em não reconhecer a sua legitimidade no amor — e aqui, talvez, Dilsey e, numa proporção menor, Benjamin sejam os únicos capazes de manifestá-lo. Sem ele, a vontade, por mais nobre ou elevada, é como o sino que não dobra ou o fogo que não aquece…
E a liberdade, tão propalada e banalizada nas bocas e mentes, surge como apenas outra forma de o homem descer às profundezas do calabouço não desejado, mas impossível de se safar, porque a luz que se acredita ver está obliterada pelas trevas que se teima em não ver.
Mas não somente a perfídia destilam as páginas; existe bondade, uma bondade ingênua, um tanto perigosa, às vezes confusa, de Benjamin, de Dilsey, de Caroline, a matriarca. Ela se reveste de uma certa gentileza para esconder o seu desinteresse, egoísmo e autopiedade, entregando os filhos aos cuidados de Dilsey, mais por inaptidão do que propriamente menosprezo. E deles são os maiores sacrifícios — Caroline os manifesta contraditoriamente, em meio à sua confusão e exaustão física e emocional —, a verdadeira entrega e aquele clamor à paz, ainda que não seja vislumbrada pela proximidade das querelas e litígios, a assomá-los por todos os lados.
“O Som e a Fúria” — título retirado de Macbeth, de Shakespeare —, como toda a obra de Faulkner, é um livro imprescindível, daqueles clássicos que o tempo não apagará. E nele encontraremos o homem — sobretudo o homem que amamos e odiamos.
Avaliação: (*****)
Título: O Som e a Fúria
Autor: William Faulkner
Páginas: 320 Páginas
Editora: Cosac & Naify
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Jorge F. Isah