Faulkner é um dos meus autores prediletos. Descobri-o meio tardiamente, numa demora protelada por quase três décadas, desde os tempos de estudante colegial envolto em outras leituras e escolhas não tão apropriadas, mas talvez necessárias para asfaltar a trilha imprescindível pela qual andaria às voltas com a literatura faulkneriana. Posto isso, digo ser um homem de preconceitos, especialmente com a escolha de títulos (salvo raras exceções), o que nem sempre é um critério válido, mesmo sendo-o aqui e acolá. Portanto, não gostei de ver abaixo do nome do escritor o título Enquanto Agonizo; pareceu-me banal e pouco criativo. Mas como eu estava equivocado…
Enquanto Agonizo é uma referência à Odisseia, de Homero, e podem-se encontrar elementos daquela peripécia nesta.
Em linhas gerais, encontramos todos os elementos da escrita de Faulkner: o fluxo de consciência à la James Joyce (sem o hermetismo); vários personagens como “vozes” na narrativa, muitas vezes contradizendo-se uns com os outros, e às vezes consigo mesmos; poesia, tristeza, beleza, abandono, loucura, decadência, morte e uma transcendentalidade quase divina, mesmo sendo agnóstica, na qual Deus é questionado e nem sempre absolvido pelos desvios e pecados humanos. Assim como Adão e Eva tentaram desesperadamente escapulir das consequências dos seus delitos lançando-os sobre Deus, boa parte dos personagens também se esforça, à sua maneira, para se esquivar e imputá-los ao Criador… Ah, e o cenário também é o mesmo: o sul dos EUA, terrivelmente pobre e preconceituoso para brancos e negros, homens e mulheres, velhos e crianças, onde as condições e a natureza humana estão em constante conflito, em toda a sua complexidade e, por que não, simplicidade também, igualmente vistas e preanunciadas em O Som e a Fúria.
O enredo, aparentemente simples, está anos-luz de distância dessa afirmação. Outro ponto interessante é a neutralidade do autor em relação à história e às personagens, ou seja, não o vemos criticar diretamente este ou aquele, esta ou aquela atitude. Ele é tão somente o mensageiro, o porta-voz das suas criaturas, e não está nada disposto a interferir na natureza (seja para o bem, seja para o mal) das personagens, sem julgá-las ou analisá-las, sem se opor ou consentir, deixando-as expressarem-se por si mesmas em suas incongruências ou lógica, erros e acertos, escolhas e destinos… Talvez, por isso, seja tão difícil o conceito do Deus pessoal. É mais interessante, familiar e cômodo um Deus impessoal, que criou e largou a sua criação ao “deus-dará”, no caos, na babel progressiva (nada a ver com ideologia, mas com gradualidade), do que o Deus bíblico, que ama e cuida da sua criação, a despeito dos céticos e insensatos, que nada podem fazer para impedi-Lo de ser como é e fazer o que faz.
À sua maneira, Faulkner é o deus, o criador a observar a sua criação sem qualquer senso moral, de justiça ou sentencioso (talvez esteja sendo por demais judicioso; o que quero dizer é: Faulkner evita condenar ou absolver seus personagens). Na arte isso é possível, especialmente se Deus é eliminado da equação e o resultado é algo anômalo e inexato. Ele observa a desordem, sem avaliação, sem juízo, e deixa ao leitor, caso queira, a posição de crítico. É tão simplesmente o descritor, trazendo à luz o bem e o mal ou o híbrido deles, sem se permitir ser quem irá apontar ou delatar este ou aquele, à direita ou à esquerda, os probos e os réprobos. Ao não tomar partido, resta-lhe ser o bom e velho contador de histórias, como poucos (graças a Deus!) se tornaram e se imortalizaram ao transmitir.
Ainda a se ressaltar, o estilo seco, consistente, denso no uso da linguagem, algo que me remete ao estilo condensado, cru e nu de Cormac McCarthy, guardadas as devidas proporções e diferenças.
Os capítulos são intitulados com os nomes dos narradores, às vezes curtíssimos, à medida que se “toma pé” da história por meio de suas falas heterogêneas, pontuadas também por pensamentos e descrições confusas e incompreensíveis, pois nem sempre o narrador saberá do que está a falar; entretanto, vai-se num crescente, lento e gradativo, a conhecer as personalidades individuais e o conjunto a fazê-las coexistentes em seus caracteres fragmentários.
Addie Bundren, a matriarca da família, está moribunda, sem esperanças, e da janela do seu quarto observa o filho mais velho, Cash, descrito como excelente carpinteiro (na verdade, a alma mais singela da trupe), construir o caixão¹. Entre marteladas, o barulho de serras e madeira cortada e desbastada pelo enxó, ela se depara, a cada arranjo, com o silêncio iminente em que sua alma e seu corpo penetrarão. Antes de partir, faz o marido, Anse, prometer-lhe realizar o último desejo: ser enterrada juntamente com os seus parentes em Jefferson, cidade a uma dezena de milhas de onde está.
Após a morte de Addie (ficou 10 dias em agonia² e o caixão pronto, terminado quase no mesmo instante, como se a matriarca estivesse à espera da conclusão ou dos entalhes finais, começa a odisseia, o translado até a cidade natal da mulher, onde seria enterrada. Neste ínterim, ocorrem incidentes a atrasar e quase inviabilizar a travessia, como a queda de duas pontes durante a enchente, as estradas intransitáveis, a perda da parelha de burros, o cansaço, o grave ferimento de Cash, as aves necrófagas a persegui-los e a terra inóspita, descrita por Peabody, o médico: “Esta região tem um defeito: tudo, o tempo, tudo dura demais. Nossos rios, nossa terra: opacos, vagarosos, violentos. Modelando e criando a vida do homem à sua implacável e soturna imagem”³… Não é difícil imaginar a procissão fúnebre como um ato tresloucado, mas também uma epopeia com contornos de heroísmo.
Nesta tragédia repleta de sentimentos e sentidos, Faulkner traça mais uma vez o fim de uma era, a perda dos valores tradicionais e o esforço quase inumano de alguns em tentar mantê-los. Enquanto Addie atravessa a morte com a convicção e a esperança de descansar em solo nativo, junto ao seu povo (seria a rejeição do estado atual e a constatação de jamais deixar de ser o que fora um dia? De jamais pertencer àquele lugar?), o marido, Anse, titubeia, claudica, enquanto tenta satisfazer e preservar a todo custo o desejo do casamento com a mulher. É a última oportunidade, a derradeira, de talvez satisfazê-la e apresentar-se como guardião e mantenedor da relação, de talvez ganhar alguma credibilidade e ser reconhecido em sua dedicação. Execrado e desprezado pela maioria das pessoas do seu convívio por ser fraco, egoísta e inútil, ele mostra-se obstinado, quase galhardamente a enfrentar qualquer oposição ao cumprimento da promessa, o voto do qual não poderia se esquivar ou escapar (um Quixote faulkneriano, pode-se dizer); mesmo tendo de enfrentar a si mesmo — a maior ameaça —, ao vitimizar-se e fazer-se de pobre-coitado, para quem as circunstâncias se afiguram terrivelmente como estorvos e flagelos sem que nada possa fazer para alterá-los em seu fatalismo passivo e impotente. Este é apenas um dos contrastes nesta obra-prima de Faulkner.
E, após Enquanto Agonizo, com a aflição não apenas antes da morte, mas no decorrer e após ela, não há como negar a minha paixão cada vez maior pela escrita de Faulkner e por todos os meios e entremeios tangíveis e intocáveis nos quais ela se desenvolveu.
O que mais se pode dizer?… Leia, leia e não deixe de ler; é o meu conselho, quase um pedido… quase uma ordem…
_____________________________________________
Avaliação: (****)
Título: Enquanto Agonizo
Autor: William Faulkner
Páginas: 224
Editora: L&PM Pocket
____________________________________________
Notas: [1] Darl ao descrever as habilidades do irmão: “Addie Bundren não podia desejar um melhor que ele, nem um caixão melhor em que descansar. O caixão lhe dará confiança e conforto.” (p. 8)
[2] A filha Dewey Dell afirma, na página 40: “Ela levou dez dias para morrer. Talvez ainda não saiba que já se foi”.
[3] Página 31.
Jorge F. Isah