As lembranças de vó Judith sempre retornam. Era pessoa muito amável, amada por filhos e netos, tinha estranhas manias, caduquices, mas era gente fina, cuidadosa, excelente cozinheira, avozinha inigualável. Só um pequeno probleminha típico da idade: tinha manias e trocava as coisas.
Umas das suas manias, era que guardava as cinzas do marido numa pequeno pote de barro na prateleira da cozinha. Já caducava mas dizia que eram só manias. Coisa de vovó já caducando mesmo. Amava muito o falecido marido e queria “tê-lo” sempre por perto. “Era um velho de ouro” – dizia com saudades. Tiveram muitos e felizes anos de convivência, teimosias e, depois, caduquices.
Aqui e ali vó Judith perdia a memória, se confundia com as coisas e as palavras, trocava as bolas e as coisas. Vivia trocando tudo de lugar e não sabia mais o lugar que colocava. Era a idade ou porque D. Judith tinha fama de vó meio maluquinha. Certo dia, saiu de casa com meias de cores diferentes. De outra feita, a blusa estava com a frente para as costas. Certo dia, queria adotar uma capivara dizendo que era um lindo “cachorrinho” abandonado. E em outra, trocou o açúcar refinado por sal e serviu um bolo extra salgado. Era desse jeito.
Mas houve um certo domingo inesquecível, uma ocasião especial. Os filhos e netos viriam visitá-la. Os netinhos adoravam a casa da vó porque casa de vó pode fazer tudo. Ou quase tudo. Serviu um peixe frito na farinha de rosca delicioso. Todos gostaram. Almoço em família é tudo de bom. Fim do domingo. Beijinhos abraços e tchau!
Vó Judith volta a ficar sozinha e vai arrumar a cozinha. Arrumando os armários, pega o pote das cinzas do querido marido. O pote estava quase vazio! Ficou encucada. Vó Judith medita um pouco e tira uma conclusão em meio a uma estrondosa gargalhada. Teria usado as cinzas do marido no lugar da farinha de rosca?
D. Judith era assim. Trocava as coisas.
Aldair R. Santos