Pastoral Americana – Philip Roth

A expressão pastoral traz vários significados no campo religioso, musical e literário. Mas sempre guarda um elo comum em cada um deles: evocar paz, serenidade e acolhimento. A simplicidade, o bucólico e o lírico se misturam e, em cada um desses aspectos, representam um estilo ou tipo de vida inocente, confortável, organizado. Mas eis que entra em cena, Philip Roth e o seu Pastoral, para estraçalhar, desconstruir a harmoniosa e pura vida social dos Levov e da sociedade americana — ao menos era assim que imaginavam —, em busca do sonhado paraíso terreno, que se rompe assim como se quebrou no Éden.

O ingênuo Adão — ingênuo, não inocente — encontra o seu correspondente no Sueco, Seymour Levov, um descendente de judeus, dono de uma fábrica de luvas femininas que vê a importância do seu negócio diminuir com o final da elegância e sofisticação nos Estados Unidos, e, por tabela, no mundo.

Se na II Grande Guerra a América entrou como a “salvadora da pátria”, a despeito de alguma resistência interna, a maioria apoiou os esforços dos Aliados em derrotar o Eixo do mal, o mesmo não se pode dizer do envolvimento dos americanos na Guerra da Coreia e posteriormente no Vietnã: a recém estabelecida “maior nação do mundo” se transformou em um front interno. Não vou entrar em questões de geopolítica para validar ou não as guerras. Interessa, muito mais, as consequências humanas apontadas por Roth, e que não são poucas e desprezíveis. Afinal, guerra é guerra, e nunca haverá consenso quanto a sua validação.

Sueco é o americano de sucesso. Exímio atleta e astro juvenil do futebol, basquete, baseball e de qualquer esporte onde se aventurasse; bonito, charmoso, alto e atlético. Invejado por muitos, endeusado por outros, ele não tratava a fama como algo superlativo — chegava mesmo a considerar a paparicação algo sem propósito e exagerado. No fundo, era o arquétipo para muitos e o orgulho para outros. Em certo momento, Seymour venceu o Sueco, ao resistir, diante das propostas para se tornar astro profissional, e seguir a carreira do pai: tocar a fábrica de luvas.

Conciliador, tranquilo, simples, às vezes ingênuo, é incapaz de dizer não ao seu velho — judeu que não admite ferir as raízes da tradição —, mas o faz uma única vez, na escolha de Dawn — católica — por esposa. Contra a vontade do pai — que submete a futura nora a um “inventário” religioso —, acabam por casarem-se.

O pai, Lou — homem arraigado à sua ancestralidade — temia que a história da família se perdesse; e os sinais de que nada do que fora antes se estenderia no futuro, o tornava exageradamente crítico quanto aos rumos que as coisas tomavam.

Eram os anos 1960 e seus arredores.

No começo, temos Zuckerman — alterego de Roth em vários dos seus romances — com a incumbência de escrever um tributo ao pai do Sueco. Ele, porém, muda o foco para o filho. Não o fez de fonte primária, mas colheu informações com parentes e amigos, folheou álbuns e catálogos de fotos, visitou a fábrica, a casa, e o que restou do antigo Correio. É impossível assegurar que tudo era verdadeiro e confiável. O próprio Zuckerman imprimiu, como todo escritor, a sua parte de “verdade” à história. É preciso lembrar que Zuckerman foi colega no ensino médio de Jerry, que nutria certa inveja do irmão Seymour. Enquanto Zuckerman o tinha por herói. Assim, como confiar nos eventos? Durante a maior parte do tempo, a dúvida persiste.

O que é real? O que não é? E ainda mais: é possível conhecer integralmente uma pessoa? Ou temos somente pistas de quem ela foi ou é?

Seymour descobrirá que tudo em que acreditava, e para o qual se entregou, a família, o trabalho, o casamento, a paternidade, não são exatamente o que se configurava. Havia fumaça, muito antes do fogo começar. 

E Zuckerman se contamina — e em algum ponto sai chamuscado — na fogueira em que a vida amplia e, ao mesmo tempo, reduz os Levov.  

Em suas mais de quinhentas páginas, Roth revela o desastre do sonho americano, mas antes a catástrofe pessoal e familiar — o American Way of Live desmorona, porque as pessoas são como um castelo de cartas na tempestade —, expondo as fissuras, abismos e rupturas nas relações e no modo de encarar a vida.

O Seymour fez tudo certo. Exemplar em tudo o que se propôs. Bom filho. Bom atleta. Bom aluno. Bom marido. Bom pai. Bom empresário. O cais onde as turbulências muitas vezes cessavam — sua mãe o considerava um “porto seguro”. Mas, nem assim, a vida funciona. Não da forma idealizada por ele mesmo. E tal qual Adão, ele tentou se absolver na culpa dos outros. Mas nos momentos mais lúcidos, ou menos turvos, não fugia da acusação: fui o culpado?

Uma bomba explode em um mercadinho na provinciana Old Rimrock, New Jersey, e desencadeia uma sucessão de eventos que tornará a vida até então irreconhecível. Nesse momento, entra Merry, a filha do Sueco. E o que o tempo se encarregaria de resolver com amor e paciência — pensava Seymour —, se transforma em tragédia de proporções imperscrutáveis.

Creio que a principal pergunta seja: o que levou aquelas pessoas, aquele país, ao caos? A guerra? A ideologia? O desprezo? O cansaço?… Há nítido desgaste; enquanto o futuro se revela delicado e quebradiço, o presente arde em chamas, e o passado é o acelerante a tocar fogo em tudo.

Restará apenas cinzas?

A guerra é transportada para as ruas, cidades e campos americanos, sem que ninguém consiga impedir; sem que ninguém saia ileso. Ela é o estopim. Mas a causa, ou causas, pode estar naquilo que o Éden mostrou: Adão tentou transferir a culpa para a mulher, depois para Deus, mas não foi absolvido. A Queda se repetiu, e a América não podia mais resistir ao seu próprio pecado: não se despir da fantasia diante do espelho. Foi preciso arrancá-la, mas enquanto resistia, se viu nua, com todos os defeitos que o tempo e o afastamento da verdade produziram.

E a verdade hesitante e dúbia é a mentira convicta. A ela se apegaram. Por ela, se estilhaçaram.

O Sueco se descobre, na meia idade, um homem inseguro, incontido, confuso e perplexo.

Roth não nos dá respostas. Ainda que se possa chegar a uma ou outra. Ele nos mostra a ação, entre a calma aparente, a detonação, a ruína e as sequelas. A Pastoral Americana são escombros.

“Porque és pó e em pó te tornarás”.

Jorge F. Isah

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