TRANSMUTAÇÃO

Mr. Pigson dorme profundamente. Na cabeceira, repousa ”A Metamorfose” de Franz Kafka, marcado ainda nos primeiros capítulos.

Ao despertar de sonhos inquietantes, Mr. Pigson deu por si na cama transformado num… num… bem, ele não sabe o que é ainda. Tenta falar, mas lhe saem apenas guinchos e grunhidos. Tenta se apoiar na beirada da cama e não consegue, suas “mãos” agora são cascos fendidos e tem quatro patas. Levanta a cabeça e vê sua pança rosada, imensamente arredondada e peluda. As orelhas caídas, cabeça rosada que terminava no focinho achatado com duas cavidades melosas. E ainda cheirava mal. Mr. Pigson estremeceu e soltou um grito, digo, um guincho. Parece que era um… porco! Dormiu homem e acordou porco! Gorducho, rosado e fedorento!

Escorrega da cama e o baque no chão é seco (ou cheio?!). A dignidade humana ficou no ontem; agora, é um quadrúpede! Titubeante, apruma diante do espelho: o homem encara a sua animalidade. Novo guincho de desespero. Sim, era um porco! Um homem-porco? Ou um porco-homem? Sabe-se-lá! Pensava como homem, mas o corpo era de porco. Tenta beslicar-se, mas a falta dos polegares e sua primeira grande tragédia. “Tenho que trabalhar… mas essa fome não sai da cabeça” — pensamento que vai se dissipando com o ronco do estômago. Os restos, as sobras ou qualquer outra porcaria ocupam a mente porcal. A geladeira parece inacessível (sem polegares!); a lixeira, porém, é um banquete de aromas irresistíveis. Ele fuça, mexe, mastiga, devora, lambuza, espalha, perdendo sua primeira camada de humanidade entre os restos de comida.

A porta aberta é um convite ao esquecimento. Mr. Pigson lembra que tem que trabalhar, mas não lembra sua profissão nem o local do seu trabalho, só pensa em comer. Sai a fuçar as lixeiras da vizinhança. As pessoas na rua espantam-se com aquele porco imenso, descomunal, um gigante. Uma vizinha liga para o fazendeiro da região, criador de porcos para abate, sugerindo que o “monstro” seja capturado, para segurança dos moradores.

Mr. Pigson, ou melhor, o porco, continua a fuçar, chafurdar lixeiras e comer. “Um banho de lama agora cairia bem”  — almeja em pensamentos turvos. De repente, percebe que não lembra mais do seu nome, nem onde fica sua casa. As memórias humanas parecem sumir devagar. O modo porcal e irracional de pensar assume o controle da mente aos porcos, digo, aos poucos, ditando o instinto. Uma derradeira lembrança humana aparece como um arrependimento: o livro inacabado do Kafka, esquecido na cabeceira.

A equipe de captura chega. Instintivamente Mr. Pigson tenta fugir, guicha uma palavra de porco sem contudo se fazer entender. Não resiste ao dardo tranquilizante, apaga.

Acorda no chiqueiro da fazenda junto a inúmeros outros porcos. Curiosamente entende perfeitamente os grunhidos dos outros porcos: em dialeto suíno falam futilidades sobre comida e banhos de lama, como todo porco. A mente estava nublada, só pensava em comer, chafurdar.

A porta do chiqueiro se abre e grades formam um corredor até a porta do caminhão do frigorífico. Era o início do fim, o destino final dos porcos. A essa altura Mr. Pigson não esboçou reação, aceitou a profecia do seu coincidente nome. Seguiu a fila até o caminhão. Já não era homem, sequer homem-porco, mas tão somente…porco.

O homem morreu, mas o porco aceita o abate.

Aldair R. Santos

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