Nascemos e nos fazemos, construímos, inventariamos o tempo todo, ajustamos, desmontamos, desistimos e nos reconstruímos, parcial ou quase completamente. A vida nos transforma em poucos anos, às vezes em décadas e, para certas pessoas, somente bem perto do fim. Nem sempre para melhor. Há pessoas que pioram continuamente, e a olhos vistos, embora estejam convencidas de que tudo o que dizem e fazem é maior e melhor do que aquilo que os demais seres humanos são capazes de realizar. Parecem nunca encontrar um espelho que lhes jogue na cara que não existe apenas uma, mas muitas Brancas de Neve, e que elas próprias, talvez, sejam bem piores do que a Rainha Má da fábula.
A única receita, se é que existe alguma, é seguir com calma para nos tornarmos seres humanos melhores, fazendo-nos a cada passo, às vezes avançando, às vezes tropeçando e levando um bom tombo. Aliás, provavelmente deveríamos aprender mais com as quedas alheias do que com as nossas. Parece-me mais econômico e racional. Além de poupar alguns joelhos.
Paciência, dizia minha mãe:
— Você só vai se tornar um ser humano melhor e entender todo esse processo que está vivendo se não ficar olhando para o vazio!
E prosseguia:
— A vida tem uma rotina, um dia a dia para todos, sejam ricos ou pobres. Cada um tem o seu, diferente quando olhamos de perto, mas fundamentalmente o mesmo. A cada dia que você vive e observa as coisas à sua volta, aprende alguma coisa. Vai amadurecendo e se tornando um ser humano melhor.
Quando ela falava em amadurecer, eu pensava nas frutas e hortaliças do quintal: a laranja, o limão, o chuchu e tudo o mais que por ali crescia. Enquanto fazia meus afazeres, aos poucos fui compreendendo o processo do meu próprio crescimento: uma roupa que ficava pequena, um chinelo que já não servia, um lugar mais alto que eu finalmente conseguia alcançar, uma greta na cerca pela qual já não podia passar.
Então me lembrava: estou amadurecendo.
Entretanto, continuava confusa. Surgiam novas perguntas, novos questionamentos e outros tantos porquês, cujas respostas nem sempre eram definitivas. Muitas perguntas, aliás, continuam sem resposta até hoje (risos).
Humanizar-se, formar-se como ser humano, é um processo que ocupa toda uma vida. Para muitos, pode ser muito bem-sucedido; para outros, o mais desastrado dos fracassos.
Esse processo é atemporal e não deixa de fora nenhum ser humano, em nenhuma época ou lugar. Todos os que já passaram pela vida passaram também por ele, com resultados melhores ou piores.
O pior de tudo é que, apesar de desfrutarmos de um conforto nunca antes experimentado e de recebermos tantas coisas prontas, o amadurecimento parece não ser mais desejável para grande parte das pessoas. Muito menos necessário, segundo elas.
Todo sofrimento, ainda que mínimo, todo aborrecimento e toda regra são rejeitados e trocados pelo hedonismo: um prazer que deve chegar de todos os lados, inclusive por meio das experiências mais extravagantes, inúteis e desnecessárias.
Por que subir ao cume de um vulcão sem ter sequer uma profissão de pesquisa ligada àquele fenômeno geológico? Casar-se, ter filhos, estar perto dos pais, escrever ou realizar alguma coisa em benefício de outras pessoas não seria mais gratificante? E saltar de uma ponte em queda livre, pagando por isso? Não bastassem os sustos gratuitos que a vida já nos oferece!
Dois pensamentos merecem ser lembrados:
“Quando vires a barba do teu vizinho arder, põe a tua de molho.”
Ou ainda:
“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm.”
Talvez falte às novas gerações compreender uma dessas lições. Ou as duas.
Aprende-se muito com o erro alheio, sem que seja necessário cometer pessoalmente cada um deles. Todos nós, por curiosidade ou pelo gosto da novidade, sentimos vontade de experimentar algumas das coisas idiotas que vemos os outros fazerem. E podemos fazê-las também. Muitas vezes, até dão certo.
Mas o fato de alguma coisa ser possível não significa que seja conveniente. Às vezes, não convém simplesmente porque é uma idiotice. E reconhecer isso, antes de experimentar, já representa algum amadurecimento.
Talvez fosse exatamente isso que minha velha mãe quisesse me ensinar, em outras palavras, de outro modo, com a sabedoria de quem conhecia a vida sem precisar testar todas as suas armadilhas.
Obrigada, mamãe. Seus ensinamentos me livraram de tantas enrascadas!
Rosemare Gomes