Sanatório Brasilis

O Brasil é um país, no mínimo, extravagante. E parece cada vez mais empenhado em manter essa fama.

Se na política pulululam figuras bizarras, trapaceiras e caricatas, no dia a dia alguns vestem a carapuça sem o menor constrangimento, e saem por aí repetindo, como papagaios, o discurso dos piratas.

Alguns preferem a perda do carinho da mãe, da amizade e intimidade com parentes e confrades — e até mesmo o respeito do vira-lata — em troca das bravatas e brejeirices dos seus ídolos de plantão: políticos, artistas, atletas ou líderes sindicais.

Ultimamente, jornalistas e magistrados, youtubers e o remelexo das ancas e quadris no TikTok e Instagram alcançaram o status de fetiches e de glórias nacionais.

Não é preciso muita inteligência para perceber, numa simples olhadela, tratar-se, em sua maioria, de figuras que, submetidas a um exame de profundidade, não molhariam sequer a sola dos sapatos. Nada em suas exibições merece crédito, a não ser o do seu Visa ou Mastercard. São casos extraordinários de sucesso do trapalhão, espécimes que fariam um picareta profissional abandonar o ofício por concorrência desleal.

O mais insano, porém, é não lhes faltar admiradores: uma legião cada vez mais empenhada em inflá-los com números de ibope, até adquirirem a dimensão de grandes personalidades nacionais — dessas que, depois de furadas, não deixam escapar nem um sopro de inteligência.

Apenas um flato azedo.

Nenhum lugar do mundo poderia ser tão próspero e fértil a ponto de florescer e vingar gerações e gerações de Ferdinands Demaras. Se em outras bandas são exceções, aqui é mato — ou melhor, erva daninha.

Quem é Mary Butterworth, falsificadora de dinheiro, ou Victor Lustig, que vendeu a Torre Eiffel e enganou o não menos criminoso Al Capone, diante da expertise brasileira?

Se considerarmos as nossas trapalhadas — rombos nos cofres públicos, assaltos às estatais, nepotismos, a pompa nababesca da burocracia, impostos e taxas extorsivos, entre outras infinitas e inimagináveis falcatruas —, veremos que elas deixariam a delinquência internacional de queixo caído, reduzindo suas pretensões quase ingênuas a brincadeiras de criança.

Se há algo a reconhecer, é a verve Brasilis de mover céus e terra por nada e a lugar nenhum. Por aqui, a ilusão de milhões é administrada pela patifaria de meia dúzia, autoproclamada a nata do maquiavelismo — embora Maquiavel, diante de tamanha concorrência, provavelmente pedisse transferência para um convento.

Entre loucos e insanos, ninguém quer se salvar, estancar a psicose ou, na melhor das hipóteses, fazer o “mea-culpa”. Há quem diga que o último homem são pediu asilo e fugiu para a Somália.

E não pensa em voltar.

Certamente a inspiração não vem de hoje, mas de milênios. Ou será que algum figurão do mainstream nacional passou ao largo da figura emblemática e inspiradora do grande Rei Goujian (496-465 a.C.)? O rei do parafuso frouxo que de tão louco espalhava medo e terror em seus inimigos?

Não é mera semelhança.

O rei, ao colocar durante as batalhas, nas primeiras fileiras, criminosos condenados à morte, deixou a sua marca perpetuar-se por séculos e séculos. Quando a luta estava para se travar, os guerreiros das fileiras iniciais empunhavam as suas espadas e cortavam a própria garganta, produzindo um quadro intensamente perturbador e monstruoso aos adversários. A tática de Goujian era parecer que o seu exército se constituía absolutamente de malucos, doidos varridos.

E, sabemos: com esse tipo de gente não dá para brincar, não é!

Tenho uma tese: a despeito das gigantescas reservas naturais, da riqueza imensurável dos nossos recursos, ninguém se atreverá a nos invadir e dominar.

E se alguém estiver disposto a fazê-lo, saiba que será apenas mais um, neste grande hospício, a ocupar a ala dos asilados definitivos.

Seja vermelho ou verde e amarelo.

Jorge F. Isah

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