Este é um livro surpreendente! Dos melhores que li, ultimamente.
Um aviso: esta não é propriamente uma resenha, muito menos um resumo do enredo. Interessa-me falar de algumas questões que permaneceram durante e após a leitura. Por isso, evitarei determinados acontecimentos, embora antecipe aspectos importantes da trajetória espiritual de Mendel Singer. Aos que ainda não leram o romance, espero despertar a curiosidade. Aos que já leram, oferecer outra possibilidade de interpretação.
Vamos a elas, então.
O título remete ao personagem histórico/bíblico Jó, um homem poderoso, rico e justo diante de Deus, o qual perdeu tudo, de uma hora para outra, e passou a viver na indigência e miséria física, material e emocional: abandonado pela esposa, tendo por companhia “amigos da onça” a questionar a sua fé e moral, por conta dos seus infortúnios — isso reflete parte da tradição judaica que creditava a fortuna e os favores de Deus a uma alma proba e santa. O contrário, uma vida miserável, era sinal de pecados e uma moral paupérrima.
Mendel Singer, um homem comum, piedoso e temente a Deus, mora em Zuchnow com a esposa e quatro filhos, levando uma vida simples: é um professor da Bíblia para crianças. Essa é a principal fonte de renda da família. Ele não é um homem de muitas alegrias, mas uma tristeza o aflige sobremodo e à sua esposa, o filho caçula Menuhim, uma criança débil de nascença, e pela qual eles oram incessantemente a Deus, por cura.
Alguém disse que, ao contrário do verdadeiro Jó, Mendel não manteve a sua fé e esperança em meio as vicissitudes. Não penso assim. Não de uma maneira definitiva. Não o tempo todo. Mendel é um homem com dúvidas e insegurança. E ao contrário do Jó bíblico — ele também sujeito a temores e hesitações —, isso o faz claudicar em sua fé, mas não a perdê-la por completo.
Antes, sem contar propriamente a história, para não tirar a curiosidade aos futuros leitores, faz-se necessário dizer que, em dado momento, ele e sua família se veem obrigados a ir para a América, lugar onde um dos filhos se estabeleceu e prosperou, fugindo do recrutamento do exército russo. Lá, ele é conhecido como Sam, ao invés de o Schemarian da terra natal. Uma alusão à perda da identidade ou o esquecimento de quem foi, sem saber corretamente quem é, em um lugar estranho e pouco distinguível.
O motivo da viagem está diretamente relacionado com a filha Miriam, mas não o citarei. Um detalhe importante é o fato de dois dos seus filhos não viajarem. Novamente, não darei os motivos; mas há aqui, também, um simbolismo, a perda de elementos de identidade, de coisas que eles são obrigados a deixar para trás, numa fuga dolorosa a impossibilitá-los de estar por inteiro; e aonde vão, estarão sempre fracionados, incompletos. Nunca serão os mesmos, enquanto as partes separadas não se unirem novamente.
Na América, em uma cultura completamente diferente — uma referência ao exílio, a diáspora para os Singer, como o foi para Israel —, Mendel mantém os seus hábitos judeus, suas orações e rituais, que o fazem permanecer sendo quem é, ao menos como investida, mesmo não estando onde deveria estar. Sempre haverá, em seu íntimo, o desejo de voltar à sua terra, à vida e ao lugar do qual não consegue se desprender — como se um cordão esticado entre os dois continentes o mantivesse atrelado — nem de onde pode escapar definitivamente.
Na verdade, ele não quer fugir, ainda que tenha fugido. Se o corpo está em outro local, a mente permanece habitando o mesmo território.
Tudo muda, porém, quando uma sucessão de tragédias afloram em sua vida, tal qual o antigo Jó.
Nesse momento, há uma ruptura, uma cisão em sua alma, e ele rejeita a sua fé. Mesmo admoestado pelos amigos, recusa-se a voltar. É o homem que não quer aceitar o seu destino, e como não há nada que possa fazer efetivamente para alterá-lo ou restaurá-lo, resta-lhe o obstinar-se contra Deus, contra a realidade, numa luta dolorida e improdutiva. Na rebeldia, tenta o impossível: encontrar-se consigo, com o homem perdido e desconhecido; na esperança de encontrá-lo, de achar o seu esconderijo, de onde nada se sabe, nem o lugar, nem como alcançá-lo.
Negar-se a si mesmo passou a ser a maneira de Mendel conviver com a dor. Negar a Deus o afastaria do seu passado. Negar a esperança o distanciaria do seu futuro. Mendel é o homem fora do tempo, a vagar como um espectro pelas ruas de Nova York, como uma caixa pesada, lenta, na qual todos tropeçam.
De alguma maneira, havia uma esperança oculta no sofrimento, e ela o chamava pelo que ainda poderia reencontrar. A identidade desfeita no abandono da fé e na ausência de elementos que o fizeram, até então, ser quem era: Mendel Singer agora convertia-se na última chance de se reencontrar — do novo homem reencontrar-se nos lombos do velho homem —, e vislumbrar alguma alegria ou o resignar-se doloroso no sofrimento, caso tudo estivesse realmente à deriva.
Entretanto, há milagres. E Mendel os vivencia.
Algo inimaginável, em meio aos seus sofrimentos acontece, como se Deus finalmente olhasse para aquele homem miserável, e triste, e amargurado, e lançasse, sobre ele, uma abundante onda de favores.
Havia a restauração da alma.
Havia a esperança.
Havia novos dias. Um futuro no qual Deus o reparou. O mesmo que levou Jó a receber tudo o que perdera em dobro e muito melhor.
Cenas emocionantes acontecem quando ele ouve, em um disco, a “Canção a Menuhim”.
Antes da revelação há música.
Antes do entendimento há uma canção.
A experiência estética — leia-se espiritual — transcende a própria reflexão, os desejos e as praxes cerimoniais.
E, então, o passado torna-se em futuro, um futuro além das mais alvissareiras expectativas.
Mendel renasce.
De alguma maneira, até mesmo as cinzas de onde a Fénix ressurge, está impregnada de beleza.
Não lhe resta mais apenas a morte, o abandono e a alma de tristezas e desconfortos. Há o refrescor e a felicidade. O reencontro consigo. O homem que se considerava perdido. Enfim, se encontra no milagre, na providência, na vida transformada e abundante. Em proporções inimaginadas e muito maiores do que jamais sentira. Mesmo o homem deficiente aspirava o dia, em que se veria completo.
Mendel nunca será mais o mesmo. Um homem aperfeiçoado no sofrimento, sem saber se melhor ou não, mas confiante de não voltar ao vômito, às fraquezas que quase o destruíram.
Assim Roth o retratou na última frase:
“E descansou do peso da fortuna e da grandeza do milagre”.
Um livro onde nada, nem mesmo as mazelas e o sofrimento, é capaz de extinguir a beleza.
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Jorge F. Isah