Ele não tinha forças para se levantar. As últimas tentativas haviam sido um suplício, e a situação parecia ter piorado nos últimos anos, faltando-lhe firmeza nos braços para erguer o corpo esquálido, porque as pernas estavam ainda mais debilitadas e sequer conseguiria puxar o andador para perto da cama com o pé. Seria humilhante ter que chamá-la para ajudar, pois haviam discutido feio na hora do almoço, quando ela comentou que “você não comeu nada”, e ele respondeu “não é da sua conta”, e o que se seguiu foi uma série de impropérios de ambas as partes, revolvendo mágoas de mais de meio século de convivência, quando chegavam a ficar dias, semanas ou às vezes meses sem trocarem uma única palavra, mesmo depois de já haverem esquecido o motivo da desavença. Em algumas oportunidades até pensaram em matar um ao outro, mas não poderiam ser incriminados por isso, pois não existe crime pensado, ou a maioria dos casais estaria atrás das grades, mas naquele dia, uma vez mais, terminaram o dia sem se falarem.
Ele queria ir ao banheiro, mas ali mesmo, sentado na cama, pôde sentir o líquido quente molhando o pijama e as cobertas, e o cheiro característico tomando conta do quarto. Era o dia de descanso do enfermeiro, e somente na manhã seguinte seria possível realizar a troca do lençol e da capa protetora do colchão. Ainda procurou concentrar uma energia sobrenatural em seus membros, como se fosse um patético cosplay de super-herói tentando voar, mas não conseguiu. O esforço foi tamanho que acabou adormecendo deitado meio de lado, todo mijado, com as pernas para fora da cama.
Acordou na penumbra com alguém mexendo em seu corpo, passando um pano úmido e levemente perfumado em seus membros inferiores e vestindo-lhe uma nova calça de pijama. Também haviam sido tiradas as cobertas, trocado o lençol e, possivelmente, o protetor do colchão, mas ele acordou um tanto confuso, já ao final da operação, chegando a imaginar que teria dormido a noite inteira e todo o dia seguinte, pois já seria noite novamente, e o enfermeiro techegado para assumir o seu posto. Mas era ela. Não se sabe de onde reuniu forças para manipulá-lo como um boneco inútil, mas o importante é que conseguiu. Pensou em agradecer, mas a voz não lhe saiu, e assim fingiu que continuava a dormir. Sentiu uma enorme vergonha por estar naquela condição humilhante, ele que sempre se orgulhara de sua força e determinação, que menosprezava as pessoas consideradas fracas, com o seu nocivo espírito de competição, que não aceitava perder nem mesmo no “par ou ímpar”, mas a vida lhe reservara importantes derrotas que ele não conseguiu assimilar. O seu orgulho permanecia inabalável, e de nada adiantaram os nocautes que levou, quando deveria ter dado os “três tapinhas” na lona, como fazem os perdedores, e não queria admitir a série de erros que cometeu e que acabaram por torná-lo uma pessoa odiável.
Alguns anos atrás, quando ainda conseguia se mover com menor dificuldade, época em que resolveu comprar uma bengala de mogno e suporte de marfim, que acreditava dar-lhe um ar aristocrático, as crianças batiam em sua porta para gritarem “travessuras ou gostosuras” e ele apontava para elas o objeto intimidador e lhes confiscava sumariamente os sacos com as guloseimas e as pisoteava com sádico prazer, mas nenhum pai ou mãe se animou a reclamar, pois a sua fama era conhecida na região, e falava-se até que colecionava armas de grosso calibre, o que não era verdade.
Brigava com os vizinhos por causa de música alta, pelo latido dos cachorros, pela gritaria da garotada que brincava de “pique-esconde”, pelos foguetes em dias de jogos, e se envolvia até em brigas de trânsito e de casais, sendo que em várias oportunidades a polícia teve que ser acionada, mas os agentes da lei sempre davam uma amenizada, pois acreditavam se tratar mais um caso de desajuste mental criado pela opressão das grandes metrópoles.
Durante algum tempo, apareceram vidros quebrados nos vitrais coloridos de sua porta e de uma ou outra janela, lixo era jogado para dentro dos muros, que também apareciam com frequentes pichações, mas com o passar dos anos acabou sendo esquecido, até mesmo pelos carteiros, que deixavam de entregar-lhe os avisos de cobranças.
Em um raro momento nostálgico, ele se lembrou do primeiro beijo que dera em sua então namorada, que foi quase acidental, no instante em que apontou para um assalto que acabara de acontecer na esquina, ela olhou para o lado errado e assim acabaram se tocando nos lábios, mas o equívoco foi capaz de desencadear um gatilho que fez com que não se largassem por horas, cada qual tentando sugar do outro uma felicidade que jamais conseguiriam encontrar, mas que ainda assim seria capaz de fazê-los figurar no Livro Guinnes para esta especialidade.
Na manhã seguinte, ele ligou para ela e marcaram de se encontrar em uma praça, e ambos estavam relativamente acabrunhados, mas acabaram unindo as suas mucosas por um tempo considerável, mas não o suficiente para superar a marca anterior, e assim engataram um namoro estranho, pois não tinham muito o que conversar, e se comunicavam preferencialmente por cartas, que mais tarde foram substituídas pelo correio eletrônico, nas quais se perdiam por temas incomuns, visto que não possuíam os mesmos interesses, ou talvez achassem que quando se encontrassem não poderiam desper-diçar o tempo que dedicavam ao sexo, a tal ponto que começaram a emagrecer, e as pessoas mais próximas acreditaram que haviam contraído a doença do amor.
Mas o amor não se trata com remédios, nem com terapias, e muito menos com mandingas ou unguentos, e as pessoas normalmente só começam a se dar conta do perigo que deste sentimento, que pode variar entre virar sonâmbulos, em deixarem queimar o arroz ou atravessarem as ruas sem se atentarem para o movimento dos carros, e quando a coisa já está perigosamente fora de controle pode virar casamento. E com o casamento, normalmente, vem a cura, quando cada qual passa a se dar conta da própria individualidade, sobrevindo crises que inauguram novas etapas de suas vidas, que normalmente levam a uma toxidade que dificultaria a um poeta mais habilidoso extrair dessa relação tortuosa uma mensagem de amor.
Dizem que amor e ódio se confundem, mas a experiência nos mostra que são sentimentos absolutamente antagônicos e distantes: podemos, contudo, dizer que são recorrentes, pois podem voltar a reinfestar o hospedeiro, como se fosse um protozoário, em diferentes etapas da vida, ou seja, as pessoas podem amar, desamar e voltar a amar novamente, mas somente quem viveu mais de 70 anos pode ser capaz de discorrer sobre isso com certa propriedade.
Ele se lembrou do dia em que ela se esqueceu do seu aniversário e viajou com as amigas para a praia, e nessa época mal haviam completado um ano de namoro, mas no aniversário dela ele fez questão de marcar um futebol com os amigos, que terminou com churrasco e cerveja até o fim da tarde, e foi dormir às 8 da noite, para acordar com uma enorme ressaca na manhã seguinte.
Teve também o episódio do batom na gola da camisa, quando trombou de frente com uma estagiária no corredor da empresa, mas aproveitou a oportunidade para lhe fazer ciúmes, e ela ficou realmente muito brava, deixando de atender os seus telefonemas por cinco dias, mas ele, para se redimir, teve que fazer uma serenata na janela de seu quarto, amparado por um amigo, que improvisou alguns tristes acordes no violão.
Ainda sob a réstia de luz que vinha da janela do banheiro, percebeu que ela estava chorando, talvez pelo pesar de ter que conviver com um homem inválido e amargo, por pensar nas oportunidades que perdeu na vida e que ainda haveria de perder até que ele se desapegasse daquela carcaça inútil, mas isso ainda poderia demorar mais alguns anos, o que era imprevisível, sendo que ela poderia partir antes, visto que tinham a mesma idade, com uma diferença de poucos meses, e em breve completariam 79 anos. Ela ainda tinha forças para sair, para fazer compras, até carregava algumas sacolas pesadas, enquanto ele apresentava uma espécie de atrofia prematura que se iniciou por volta dos 70 anos, que nenhuma fisioterapia haveria de solucionar. Acabou se resignando, primeiramente, ao adquirir a tal bengala aristocrática e, por fim, um andador, mas nos últimos tempos nem era capaz de utilizá-lo, necessitando da assistência permanente dos enfermeiros.
Ele se recusava a utilizar fraldas, porque achava que era o sinal absoluto de decadência de um ser humano, e por isso conseguia prender suas necessidades fisiológicas por horas ou às vezes dias, o que lhe causou sérias complicações nos rins e nos intestinos. Mas naquele dia não havia conseguido se segurar, e ainda bem que foi somente a urina, ou a desonra o obrigaria a cometer um harakiri utilizando uma escova de dentes.
– Quero te pedir perdão! – ele conseguiu balbuciar, e logo em seguida: Obrigado!
– Da próxima vez, trate de fazer no banheiro – disse ela.
Ficaram um longo período em silêncio, mas ele resolver prosseguir, falando bem baixo.
– Podemos procurar amanhã uma casa de repouso para mim. Não deve ser tão caro. Nós temos como pagar.
– Você ainda tem uma esposa. Não sei se fosse comigo você faria a mesma coisa, mas eu tenho palavra: prometi no altar que ficaríamos juntos até o fim.
– Eu admiro isso em você, mas não merece esse trabalho que estou dando. Lá deve ter gente especializada para cuidar de pacientes como eu…
– Você está dizendo que não estou sabendo cuidar de você? – disse ela, ofendida.
– Não é isso…
– Você acha que vou deixar que as pessoas pensem que sou uma megera horrível e que abandonei o meu marido em um asilo?
– Eu vou ficar bem. E você merece viver.
– Você diz isso agora, depois de ter sugado a minha vida inteira?
– Só posso pedir perdão. Perdão.
– Ah, deixa pra lá – e saiu para arrumar alguma coisa na cozinha.
“Ela me ama” – ele se estarreceu ao pensar.
Sua reação não combinava com ódio. Nem com desprezo. E muito menos com indiferença. Era uma grande mágoa, mas ainda haveria ainda uma chama de esperança, como um carvão esquecido sob as cinzas, ao final de um churrasco. Bastaria um leve sopro. E assim ele alcançou o criado, abriu a gaveta e pegou um papel e uma caneta com o propósito de escrever uma carta para ela, pois a vista estava afetada pela catarata e não conseguia digitar ou enxergar as letras que apareciam na tela trincada de seu smartphone, mas no papel ainda era capaz de escrever com letras grandes. Como nos velhos tempos.

